Lula amplia crédito subsidiado, preocupa BC e pressiona juros

O crédito subsidiado exige uma Selic mais elevada para conter a inflação.


O volume de crédito direcionado no Brasil voltou a crescer durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo dados do Banco Central (BC). A expansão dessa modalidade de financiamento, que conta com juros subsidiados e condições mais favoráveis, é apontada pela autoridade monetária como um dos fatores que contribuem para a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados.

O crédito direcionado corresponde a financiamentos destinados a finalidades específicas, regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), como habitação, agricultura e infraestrutura. Essas linhas costumam oferecer juros menores e prazos mais longos em razão de subsídios governamentais, fontes de recursos mais baratas e garantias públicas.

Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 29 de abril, o Banco Central afirmou que “o aumento do crédito direcionado e as incertezas quanto à estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo da desinflação em termos de atividade”.

Segundo o BC, a expansão do crédito subsidiado reduz a eficácia da política monetária, exigindo uma Selic mais elevada para conter a inflação. Atualmente, a taxa básica está em 14,5% ao ano.

As principais modalidades de crédito direcionado incluem financiamentos habitacionais, crédito rural, linhas operadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), programas com garantias públicas, como o Pronampe e o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), além de incentivos voltados a setores específicos da economia.

Dados do Banco Central mostram que o crédito direcionado representava 43,1% do saldo total das operações de crédito em março de 2026, o maior percentual desde 2019. Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), essa participação havia recuado.

Analistas observam que, diante das limitações impostas pelas regras fiscais, o governo tem ampliado programas de crédito subsidiado. Entre as iniciativas anunciadas estão linhas voltadas à aquisição de máquinas agrícolas, ao Minha Casa, Minha Vida, ao Plano Safra, à compra de caminhões e ônibus, a microempreendedores de baixa renda, à reforma de imóveis, à renegociação de dívidas, à política industrial, ao crédito imobiliário e a projetos ambientais.

Em 2023, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, comparou o crédito direcionado ao sistema de meia-entrada no cinema. “No crédito direcionado, a gente pode fazer a análise do cinema que vende meia-entrada. Se eu vendo muita meia-entrada e quero ter o mesmo lucro, tenho que aumentar o preço da entrada inteira. O crédito funciona um pouco assim”, declarou.

O atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou recentemente que o Brasil possui características peculiares que ajudam a explicar a combinação de juros reais elevados, inflação acima da meta e desemprego em níveis historicamente baixos. Segundo ele, reformas estruturais serão necessárias para aumentar a eficácia da política monetária.

O Banco Central também destaca que o crédito direcionado representa cerca de 43% do total das operações de crédito no Brasil, percentual superior ao observado em países como o México, onde essa participação é de aproximadamente 26%, enquanto, em grande parte das economias comparáveis, o índice permanece abaixo de 5%.