China está perdendo portos, poder e influência na América Latina

Vários países latinos reduziram os laços com Pequim recentemente.


A chamada “Doutrina Monroe” voltou ao centro do debate geopolítico nas Américas em meio a sinais de redução da influência chinesa em alguns países da América Latina. Entre os episódios recentes apontados nesse contexto estão a suspensão do projeto do cabo submarino “Chile-China Express”, a adoção de tarifas pela Colômbia sobre produtos siderúrgicos chineses, a revisão de temas ligados à segurança econômica entre México e China, a rejeição, pelo Peru, da entrada de um navio-hospital militar chinês e discussões em Honduras sobre uma possível reaproximação com Taiwan.

No Brasil, o presidente Lula teria solicitado ao presidente Donald Trump maior presença norte-americana no país após visita à Casa Branca.

Em 2013, durante discurso na Organização dos Estados Americanos (OEA), o então secretário de Estado dos Estados Unidos, na gestão de Barack Obama, John Kerry, declarou o fim da Doutrina Monroe, sinalizando uma mudança na abordagem histórica de Washington em relação ao hemisfério. Críticos da decisão argumentam que ela abriu espaço para o avanço da influência de países hostis ao Ocidente, como China, Rússia e Irã, na região.

A partir de 2025, o governo Trump passou a defender uma retomada dessa política, associando-a a uma estratégia voltada ao fortalecimento da liderança norte-americana e à contenção da influência de potências extrarregionais, especialmente a China.

Nesse contexto, foi realizada, em março deste ano, na Flórida, a “Cúpula do Escudo das Américas”, iniciativa norte-americana voltada à cooperação entre países parceiros em temas como combate à interferência estrangeira, enfrentamento ao narcotráfico e às gangues transnacionais, além da imigração irregular.

Os Estados Unidos também anunciaram o exercício militar “Southern Seas 2026”, que provocou o deslocamento do porta-aviões nuclear mais antigo do mundo, o USS Nimitz, e do destróier USS Gridley pela América Latina. Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru, México, El Salvador, Guatemala e Uruguai participaram de atividades conjuntas com forças norte-americanas, com escalas da frota do porta-aviões em portos do Brasil, Chile, Panamá e Jamaica.

Desde a volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, no Panamá, país estratégico na América Latina por causa do Canal do Panamá, houve fortalecimento dos laços diplomáticos com Washington, incluindo a recuperação da soberania sobre os portos de Balboa e San Cristóbal, anteriormente operados pela empresa CK Hutchison, sediada em Hong Kong.

Durante a décima “Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC)”, organizada pela Colômbia, a expectativa era de participação virtual do presidente chinês Xi Jinping diante de chefes de Estado da região. No entanto, a baixa adesão de líderes latino-americanos foi interpretada como um revés diplomático e uma derrota para Pequim.

No Chile, o projeto de cabo submarino com participação chinesa foi congelado após alertas dos Estados Unidos sobre riscos associados ao controle de dados. Também foi interrompido o projeto da instalação espacial de Cerro Ventarrones, enquanto o presidente eleito de direita, José Antonio Kast, firmou uma declaração conjunta com Washington sobre minerais críticos e terras raras.

Já o Peru recusou a entrada do navio-hospital militar chinês Silk and Road Ark e, em janeiro, foi designado pelos EUA como importante aliado não pertencente à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ampliando a cooperação militar bilateral.

Apesar desses movimentos, a China ainda mantém presença relevante na América Latina, sobretudo em setores estratégicos, como infraestrutura portuária, redes elétricas, telecomunicações e monitoramento espacial. Diante desse cenário, os Estados Unidos têm buscado recalibrar sua atuação regional, intensificando sua presença diplomática, econômica e militar no hemisfério.