Merz, da Alemanha, brilha nos bastidores enquanto Trump e Musk duelam em DC

Ao final da viagem, o chanceler declarou que o ambiente da reunião foi “muito bom” e disse sentir que pode “ligar para Trump a qualquer momento”.


O primeiro encontro entre o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi ofuscado pela atenção gerada pelo conflito público entre o líder norte-americano e o empresário Elon Musk. Ainda assim, a visita de Merz a Washington foi considerada um êxito político.

“Ser marginalizado nem sempre é algo ruim”, afirmou Carsten Brzeski, economista-chefe global do ING, à emissora norte-americana CNBC. “A distração causada por Musk acabou tirando o foco de temas mais sensíveis para Merz.”

A visita representava um grande risco para o chanceler, que assumiu o cargo recentemente, diante da postura imprevisível de Trump com outros líderes estrangeiros. No entanto, ao evitar qualquer atrito público, Merz teria alcançado um dos principais objetivos da viagem. “Evitar uma escalada no Salão Oval já é uma vitória nos dias de hoje”, comentou Brzeski.

Com uma agenda abrangente, Merz buscou reforçar os laços EUA-Alemanha, discutir tarifas com potencial impacto para a indústria alemã, assegurar apoio à Ucrânia e destacar o compromisso alemão com os gastos de defesa da OTAN. Embora o conteúdo das conversas privadas não tenha sido divulgado, segundo o estrategista Julius van de Laar, Merz teria conseguido abordar todos esses temas.

O chanceler também aproveitou a ocasião para vincular o apoio à Ucrânia à memória do Dia D, celebrado um dia após o encontro. Ele ressaltou o papel histórico dos EUA na libertação da Europa do nazismo e expressou a expectativa de que Trump reforce o compromisso com a segurança europeia.

Outro gesto simbólico foi o presente entregue a Trump: a certidão de nascimento do avô do presidente, destacando as raízes alemãs da família. Segundo Jackson Janes, do German Marshall Fund, isso reforçou a conexão bilateral. Janes também destacou como relevante o compromisso da Alemanha com o aumento de seus gastos militares, agora permitidos por mudanças fiscais recentes.

Merz e seu governo demonstraram abertura à proposta de Trump de que os países da OTAN destinem 5% do PIB à defesa. Por outro lado, temas sensíveis como o apoio de aliados de Trump à AfD — partido alemão classificado como extremista de direita — foram evitados. Merz já havia advertido os EUA contra qualquer envolvimento nessa questão.

Ao final da viagem, o chanceler declarou que o ambiente da reunião foi “muito bom” e disse sentir que pode “ligar para Trump a qualquer momento”. O presidente norte-americano chegou a elogiar Merz, classificando-o como “um homem difícil, mas muito bom de lidar”. Uma visita de Trump a Berlim já estaria sendo considerada, segundo o próprio Merz.

Para analistas, a viagem representou um “home run” para o líder alemão, que conseguiu estabelecer as bases para um relacionamento pragmático com a Casa Branca em um cenário global incerto.