São Paulo tem 834 mortes por intervenção policial e bate recorde

Pessoas negras foram 64,6% das mortes registradas em ações policiais.


O estado de São Paulo registrou, em 2025, o maior número de mortes decorrentes de intervenções policiais desde o início da série histórica monitorada pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciada em 2019. Foram 834 vítimas fatais, um aumento de 2,7% em relação a 2024, segundo o relatório Pele Alvo, divulgado nesta quarta-feira (1º).

O levantamento aponta uma contradição no cenário da segurança pública paulista: o recorde de mortes provocadas por agentes do Estado ocorreu ao mesmo tempo em que houve redução de importantes indicadores criminais. No período, os furtos caíram 6,3%, os roubos recuaram 18,8%, os latrocínios tiveram redução superior a 50% e o número de homicídios diminuiu 3,1%.

Segundo os pesquisadores, os dados indicam que o aumento da letalidade policial não acompanha a evolução da criminalidade e reflete uma política de segurança pública baseada no confronto.

“A letalidade responde menos à variação da criminalidade e mais a uma lógica de gestão da vulnerabilidade”, afirma o relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã.

A pesquisa é produzida a partir de dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa coordenada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), em parceria com instituições de nove estados. Em São Paulo, o monitoramento é realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

O relatório também destaca o recorte racial da letalidade policial no estado. Embora a população negra represente 40,9% dos habitantes de São Paulo, pessoas negras corresponderam a 64,6% das mortes registradas em ações policiais em 2025.

Além disso, 98,7% das pessoas mortas eram homens, e a capital paulista concentrou 30,5% de todas as ocorrências do estado. Para os pesquisadores, os dados reforçam que a violência estatal atinge de forma desproporcional a população negra e periférica.

A faixa etária mais atingida pela letalidade policial em São Paulo foi a de 18 a 29 anos, com 348 mortes. Considerando também adolescentes de 12 a 17 anos, a juventude até os 29 anos representa a maioria das vítimas.

Em 2025, os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança registraram 4.330 mortes decorrentes de intervenções policiais, uma alta de 6,4% em relação ao ano anterior.

Segundo o levantamento, considerando apenas os casos com informação sobre raça/cor, 86,3% das vítimas eram negras. A pesquisa também aponta que 64,8% dos mortos tinham até 29 anos e que a maioria era formada por homens residentes em periferias e favelas.

O relatório indica ainda que, na média dos estados monitorados, pessoas negras têm quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo registraram, em 2025, os maiores números de mortes por intervenção policial desde o início da série histórica, em 2019.