China aplica tarifa de até 55% sobre a carne bovina do Brasil

A China respondeu por 48% das exportações brasileiras de carne bovina em 2025.


A China decidiu taxar e limitar, no último dia de 2025, a importação de carne bovina como forma de proteger seus produtores locais. O país anunciou nesta quarta-feira (31) a criação de cotas anuais para que empresas possam comprar o produto de fornecedores estrangeiros, como o Brasil, maior exportador para o mercado chinês.

Além das cotas, as importações passarão a pagar uma taxa de 12%, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). As compras que excederem os limites estabelecidos estarão sujeitas a uma sobretaxa de 55%.

As medidas entram em vigor amanhã, quinta-feira, 1º de janeiro de 2026, e terão duração de três anos. De acordo com o Ministério do Comércio da China, a cota total de importação em 2026 será de 2,7 milhões de toneladas, com previsão de aumento progressivo nos anos seguintes. O volume é próximo ao recorde de 2,87 milhões de toneladas adquiridas em 2024, mas inferior ao total importado nos primeiros 11 meses de 2025.

Na divisão por países, o Brasil terá a maior cota em 2026, de 1,1 milhão de toneladas. O número é inferior ao volume exportado pelo país neste ano, que somou 1,52 milhão de toneladas até novembro. A China respondeu por 48% do volume total de carne bovina exportado pelo Brasil em 2025 e por 49,9% do faturamento do setor, equivalente a US$ 8,08 bilhões. Os Estados Unidos aparecem como o segundo maior cliente, com 244,5 mil toneladas e US$ 1,46 bilhão, segundo a Abiec.

O governo brasileiro minimizou os impactos da decisão. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que a medida, de modo geral, “não é algo tão preocupante”, destacando que o Brasil exporta volumes próximos às cotas e tem avançado na abertura de novos mercados, como o Japão, que pode passar a importar o produto brasileiro em 2026. Ainda assim, o governo federal pretende negociar com a China, incluindo a possibilidade de transferência das cotas de outros países para o Brasil.

Em nota conjunta, CNA e Abiec afirmaram que o novo cenário exigirá ajustes ao longo de toda a cadeia produtiva, da produção à exportação, para evitar efeitos mais amplos. A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) estima que a medida possa gerar perda de até US$ 3 bilhões em receita para o Brasil em 2026 e manifestou “profunda preocupação” com o anúncio. “É uma medida que pode funcionar como fator de desestímulo para o pecuarista investir mais na atividade, ampliando a produção”, afirmou a entidade. “Os efeitos podem se estender por toda a cadeia produtiva, com reflexos sobre geração de renda, emprego e investimentos no campo.”

A adoção das cotas é resultado de uma investigação iniciada em 2024 pelas autoridades chinesas. Segundo o Ministério do Comércio do país asiático, “o aumento na quantidade de carne bovina importada prejudicou seriamente a indústria nacional da China”.

Especialistas ouvidos pela agência Reuters avaliam que as tarifas devem ajudar a conter a redução do rebanho bovino chinês e a dar tempo para ajustes no setor, em um contexto de escassez global de carne bovina e de pressão sobre os preços internacionais.