A nova Estratégia de Segurança Nacional do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defende a restauração do protagonismo norte-americano no Ocidente, o que, segundo o documento visto e analisado pelo The São Paulo News, implica ampliar a presença militar dos EUA na América Latina, chamada no texto de Hemisfério Ocidental.
Em quatro pontos, o governo americano explicita o que pretende para a região:
• “queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e com governos bons o suficiente para impedir e desencorajar a migração em massa para os Estados Unidos”;
• “queremos um hemisfério com governos que cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais”;
• “queremos um hemisfério em que países de fora não façam invasões hostis ou tomem posse de recursos estratégicos e que apoie cadeias de suprimentos essenciais”;
• “queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes”.
O texto conclui que, “em outras palavras”, Washington pretende assegurar e impor o “Corolário de Trump” à Doutrina Monroe.
Anunciada em 1823 pelo então presidente James Monroe, a doutrina estabeleceu o princípio de que potências europeias não deveriam interferir nos assuntos do continente americano, sintetizado no lema “A América para os americanos”. Segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, “o presidente dos Estados Unidos declarava que potências europeias não deviam mais interferir na América Latina. Isso, para nações recém-independentes, ainda bastante vulneráveis, não era necessariamente uma coisa ruim, porque, para essas nações, a Europa representava a principal ameaça. Então, eu chamo essa fase de ‘fase idealista da Doutrina Monroe’”.
O caráter controverso da doutrina se intensificou cerca de oitenta anos depois, quando o presidente Theodore Roosevelt atualizou seus princípios. Sob o argumento de impedir a interferência europeia, os EUA passaram a intervir militarmente em países como República Dominicana, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá e Cuba. A partir dos anos 1940, o foco da doutrina se voltou para o combate ao comunismo, com apoio americano a golpes e regimes militares em diversos países do continente, incluindo Nicarágua, Chile, Paraguai, Argentina e Brasil, tendo como principal objetivo livrar a América Latina do “terror” do comunismo.
Para Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais, “a percepção que se tinha da Doutrina Monroe é muito associada à sua reinterpretação no século XX, a chamada Doutrina do Grande Porrete, que significou uma intervenção muito grande em países da América Latina e, portanto, criou um certo sentimento de ressentimento em relação a um país muito mais poderoso, que parecia usar o seu poder para violar a soberania desses demais países das Américas”.
Stuenkel avalia que a atual estratégia dá consistência a esse histórico de interferências. “Sem dúvida, esse primeiro ano de governo Trump deu à América Latina um gostinho do que está por vir. Trump buscou interferir nos assuntos internos não apenas do Brasil, mas também da Argentina e de outros países da região. Esse documento dá substância a esse tipo de comportamento. Então, é provável que haja outros casos, sobretudo antes de eleições, quando Washington busca dar preferência e vantagem a determinados candidatos que considera mais alinhados com a ideologia de Trump”, afirma.




