O vice-prefeito de São Paulo, Coronel Ricardo Mello Araújo (PL), indicado para o cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliado próximo da família, provocou uma crise na prefeitura e no Palácio dos Bandeirantes ao fazer críticas ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e apontar supostas irregularidades nas operações realizadas na região da cracolândia.
A tensão começou após declarações concedidas à Folha de S.Paulo e à CNN Brasil. Ao criticar o governador, Mello Araújo afirmou: “O governador deu a entender que fez tudo sozinho na cracolândia, e isso é injusto. Ele também foi infeliz na declaração de que a cracolândia acabou quando o Moinho foi desocupado”. Na entrevista ao jornal, ele classificou a fala de Tarcísio como “grande enganação”.
O estopim ocorreu depois de reportagem exibida pela TV Record no último domingo (16), na qual Tarcísio explicou o fim da concentração de usuários na região sem mencionar o vice-prefeito. A postagem do governador em 13 de novembro — “Sim, a cracolândia acabou” — também reacendeu discussões sobre o tema.
Segundo dados da prefeitura, o fluxo chegou a reunir cerca de 400 usuários consumindo drogas simultaneamente na rua dos Protestantes, próxima à estação da Luz. A dispersão ocorreu em maio, mas novas aglomerações passaram a surgir em outros pontos do centro.
Desde que assumiu o cargo há 11 meses, o coronel reformado da Polícia Militar e ex-comandante da Rota passou a atuar diretamente nas ações no território. Ele afirma ter coordenado mudanças consideradas decisivas, como o fim da distribuição de marmitas na região e maior rigor na cobrança de contratos firmados com entidades terceirizadas.
Mello Araújo também apontou irregularidades na atuação dessas instituições. Segundo ele, algumas entidades contratadas para acolher dependentes químicos recebiam por vagas disponíveis e ocupadas, o que tornaria mais lucrativo manter leitos livres. “Como a prefeitura paga a vaga cheia, o que é melhor para a entidade? O quadro ideal é, se você tiver 60 leitos, receber por 60 leitos, mas só usar 20”, disse. Afirmou ainda haver “pessoas com interesses escusos”. A Controladoria-Geral do Município apura o caso.
Ele também relatou a suposta existência de funcionários fantasmas no atendimento médico: “No Caps, onde internavam as pessoas, descobrimos 34 médicos que não iam trabalhar, que não existiam. R$ 368 mil de folha de pagamento que a gente pagava, e está sendo apurado, porque eu pedi para apurar. Esse dinheiro ia para quem?”. A gestão Ricardo Nunes (MDB) confirmou a investigação sobre as entidades, mas negou irregularidades envolvendo os médicos, afirmando que atuavam como pessoa jurídica e recebiam apenas pelos dias trabalhados.
As críticas do vice-prefeito repercutiram politicamente. Aliados de Tarcísio e Nunes avaliam que a postura de Mello Araújo, ligado ao bolsonarismo, prejudica a articulação que buscava viabilizar uma eventual candidatura de Ricardo Nunes ao governo paulista em 2026, caso Tarcísio opte por disputar a Presidência. Para eles, os ataques criam resistência à mudança no comando da prefeitura e expõem fissuras na relação entre bolsonaristas e o grupo político de Tarcísio.
Questionado sobre eventual influência de Eduardo Bolsonaro na situação, Mello Araújo negou: “Não falo com Eduardo Bolsonaro desde que ele foi para os Estados Unidos”.




