Chile vai às urnas em eleição que pode colocar a direita no poder

Essa será a primeira eleição do país com voto obrigatório e registro automático aos 18 anos.


O Chile irá às urnas neste domingo (16), no primeiro turno das eleições presidenciais, em um cenário marcado por forte polarização entre a esquerda, a direita e a ultradireita. A disputa repete a tendência recente observada em países como Bolívia, Equador e Argentina, além de refletir uma onda global de radicalização política.

No caso chileno, porém, o processo ocorre sob circunstâncias particulares: cresce a frustração entre eleitores de esquerda e, simultaneamente, há um avanço do conservadorismo. Entre os principais concorrentes estão Jeannette Jara, do Partido Comunista, apoiada pelo atual presidente chileno, Gabriel Boric — impedido por lei de concorrer à reeleição —, e José Antonio Kast, do Partido Republicano, representante da ultradireita.

Outros candidatos com potencial para influenciar um eventual segundo turno são Evelyn Matthei, atualmente identificada com a centro-esquerda, além de Francisco Parisi e Johannes Kaiser, situados da extrema direita à direita.

A disputa opõe duas visões antagônicas. Jara, ex-ministra do Trabalho, propõe ampliar a presença do Estado, instituir um salário mínimo nacional, definir preços máximos para medicamentos e criar a Empresa Nacional de Lítio, setor estratégico para a economia e para a transição energética. Kast, em sua terceira tentativa de chegar à presidência, defende o endurecimento no combate ao crime organizado, a restrição à imigração e a redução dos gastos públicos, com maior participação de parcerias público-privadas na saúde e na educação.

Segundo levantamento da AtlasIntel, Jara lidera com 32,7% das intenções de voto, seguida por Kast (20,1%), Matthei (13,8%), Kaiser (13,4%) e Parisi (13,2%). O cenário aponta para um segundo turno, no qual, conforme a pesquisa, Jara perderia em todas as simulações. Em um confronto direto com Kast, o ultradireitista venceria por 47% a 39%. A avaliação é que, mesmo sem união formal, o eleitorado de direita tende a convergir.

O contexto social ajuda a explicar esse ambiente. A eleição ocorre após o fracasso do processo constitucional iniciado depois do estallido social de 18 de outubro de 2019, quando o país viveu seus maiores protestos desde a redemocratização, em 1988. As manifestações, motivadas por demandas por melhores serviços públicos, resultaram em um acordo político, em 2020, para redigir uma nova Constituição. No entanto, duas propostas foram rejeitadas em plebiscitos, levando Boric a encerrar o processo.

A frustração com a reforma constitucional marcou o governo e alimenta temores de novos protestos. Pesquisas indicam que esse sentimento favorece a direita no segundo turno, enquanto a esquerda terá o desafio de mobilizar seu eleitorado.

Esta também será a primeira eleição presidencial sob a nova lei eleitoral, que institui o voto obrigatório e mantém o registro automático a partir dos 18 anos. O principal desafio do país é reforçar a importância da participação eleitoral em meio ao cenário de tensão política.