Acusada de golpe, ex-presidente boliviana é solta após decisão judicial

Detida em 2021, Áñez ficou 20 meses presa e foi condenada por suposta tomada ilegal de poder após a saída de Evo Morales.


A ex-presidente da Bolívia, Jeanine Áñez, foi libertada nesta quinta-feira (6) após mais de quatro anos e meio detida em uma prisão de La Paz. A decisão ocorreu um dia depois de a Suprema Corte do país anular sua sentença de dez anos de prisão e determinar sua libertação imediata.

“Jamais houve um golpe de Estado. O que houve foi uma fraude eleitoral que levou todos os bolivianos a reivindicar nosso direito de ter os votos respeitados”, declarou Áñez ao deixar o presídio feminino da capital boliviana. Ela foi recebida por familiares e apoiadores e acenou com uma bandeira de seu país nas mãos.

Detida em março de 2021, Áñez passou 20 meses em prisão preventiva antes de ser condenada em 2022 por suposta tomada inconstitucional de poder, após a renúncia de Evo Morales em 2019. O ex-presidente havia deixado o país em meio a protestos e à pressão das Forças Armadas contra sua reeleição para um quarto mandato.

De acordo com o presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Bolívia, Romer Saucedo, Áñez deverá responder a um “julgamento de responsabilidades”, procedimento reservado a ex-chefes de Estado e que requer autorização do Congresso boliviano, em vez de um julgamento penal comum. A Corte determinou sua libertação para que ela possa se defender nesse novo processo.

A política de direita assumiu a Presidência em meio à convulsão social que se seguiu à renúncia de Morales. A sucessão ocorreu em uma manobra legislativa controversa, já que todos os integrantes da linha direta de sucessão haviam deixado seus cargos.

Após sua posse, partidários de Morales promoveram protestos que resultaram em confrontos com forças combinadas do Exército e da Polícia. Segundo a Defensoria do Povo, a repressão deixou 36 mortos, a maioria após a posse de Áñez. Ela permaneceu no cargo até 2020, quando foi sucedida pelo esquerdista Luis Arce.

“Jamais vou me arrepender de ter servido minha pátria”, afirmou Áñez com um megafone na porta do centro penitenciário.

Sua libertação ocorre poucas semanas após o segundo turno das eleições de outubro no país, que consagrou o conservador Rodrigo Paz, de 58 anos, como novo presidente da Bolívia. A vitória de Paz marcou a primeira derrota em duas décadas do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales e principal acusador de Áñez por suposto golpe de Estado. A posse de Paz está marcada para este sábado (8).