Em 67 a.C., a já desgastada República Romana sofria de um grande mal que afetava o coração das conquistas e dos domínios romanos, o mar Mediterrâneo — para eles, o mare nostrum: a pirataria. Os cada vez maiores e mais poderosos grupos piratas assolavam as rotas de comunicação, comércio e transporte que conectavam as províncias do grande poder romano e abasteciam de informações e comida a população, causando cada vez mais problemas para a estabilidade da República, uma vez que os navios que carregavam, por exemplo, o trigo e o vinho — sendo o primeiro ainda mais crucial — eram atacados e saqueados, e não mais conseguiam sustentar a população romana. Já não era possível ignorar o problema.
O que se seguiu foi um acalorado debate entre dois partidos, que divergiam na forma de lidar com o problema da pirataria. Os optimates, facção coordenada por uma elite aristocrática, rica e burocrática, defendiam que a situação deveria ser abordada com cautela, evitando grandes confrontos e a nomeação de um líder poderoso para combater os piratas. Não era de se surpreender: afinal, para este grupo, não era um problema o aumento no preço do trigo. Os popolari, por outro lado (dentre estes um jovem e ambicioso Júlio César), viam a situação de outra maneira. Percebendo o grande prejuízo das camadas populares com a escassez do trigo e a ameaça à soberania e estabilidade do país, que eram consequências da pirataria, estes, mais próximos da dura realidade imposta e mais distantes de uma filosofia burocrática e utópica, defendiam que os piratas fossem imediatamente confrontados em batalha, para pôr fim aos problemas que afligiam Roma. E, felizmente para Roma, a segunda facção venceu.
Foi com essa vitória que, por meio da chamada Lex Gabinia, os popolari conseguiram que o conhecido general Pompeu fosse nomeado para liderar uma impressionante força com o único objetivo de eliminar completa e inescrupulosamente o problema dos piratas. Com uma frota estimada em mais de quinhentos navios, Pompeu reuniu todos os recursos que tinha à disposição e imediatamente levantou âncora para combater os piratas. Em apenas dois meses de campanha, um problema que há séculos afligia Roma foi resolvido, com mais de quatrocentos navios piratas apreendidos, mais de vinte mil criminosos presos e outros dez mil eliminados. A ameaça pirata, então, chegou ao fim. O povo voltaria a ter trigo em segurança e Roma voltaria a ter soberania e estabilidade em seu próprio território.
Saltamos agora mais de dois milênios, para uma “Cidade Maravilhosa” erguida sob o que pode ser descrito como a mais bela paisagem natural do mundo, mas corrompida pelos pecados da falta de virtude e eficiência do Brasil. A cidade, hoje conhecida mundialmente mais por sua insegurança do que por sua beleza, tem boa parte de seu território dominado por facções criminosas, que poderiam, segundo muitos juristas, ser declaradas como terroristas e até como forças invasoras do território nacional; afinal, possuem exércitos e até sistema jurídico, e sob sua opressão vivem milhões de brasileiros.
Assim como em Roma, surge no Brasil um debate acalorado sobre como devemos, como nação, lidar com esse problema, e as duas facções nesse debate parecem não se diferenciar muito das que existiram em Roma. De um lado, uma elite, alinhada com setores da burocracia, defende que o problema não deve ser enfrentado diretamente, propondo soluções rasas, repetindo a palavra “inteligência” sem ao menos saber seu significado e ignorando uma história de dois milênios de combate ao crime — não apenas de Pompeu e Roma, mas de todos os casos de sucesso, desde os cavaleiros de Rodes contra os piratas muçulmanos até Edgar Hoover e o FBI contra os poderosos criminosos americanos tão conhecidos por conta de Hollywood. Este lado, ao que parece, nega uma triste realidade, que cada vez mais é não só verdadeira, como nitidamente incontestável: o Rio de Janeiro, e o Brasil como um todo, está em guerra.
Do outro lado, há aqueles que percebem essa realidade e, ainda que doa enxergá-la, admitem-na e querem, de forma decisiva, mudar o panorama, como Roma fez contra os piratas. Neste grupo, mais do que uma elite ou uma burocracia, está uma população que, acima de qualquer ideologia, está cansada de grupos criminosos puxando seu país para baixo. Felizmente, este grupo é a maioria, principalmente entre aqueles que têm seu trigo roubado pelos piratas — isto é, suas vidas controladas por facções criminosas —, ou seja, os moradores de comunidades, como aponta a recente pesquisa da AtlasIntel, que revela que 8 em cada 10 moradores de favelas apoiam grandes operações contra o tráfico.
O Brasil está em guerra contra as facções criminosas, e o Rio de Janeiro é o principal campo de batalha. Neste conflito, cada vez mais o crime avança, e o poder público se mantém na defensiva, com as forças de segurança de mãos atadas por canetadas de burocratas, nossos optimates. Cabe aos popolari, e a todo bom cidadão desse lado, lutar neste conflito — não nos complexos e nas vielas como as polícias, mas no campo do debate público — ajudando o Brasil a entender que não é pelas canetadas de uma complexa burocracia, mas por uma mão forte e decisiva, e, infelizmente, bélica, que a ordem no Brasil — presente em nossa bandeira — será restaurada, e que é pelas miras dos oficiais, assim como pelas espadas dos legionários, que o tráfico será derrotado, e não pelas canetas de burocratas.
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Artigo de opinião escrito por Felipe Vasconcelos. As opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a posição do jornal The São Paulo News.




