O candidato do Partido Democrata Cristão, Rodrigo Paz, foi eleito presidente da Bolívia neste domingo (19), após um histórico segundo turno que marcou uma guinada à direita no país, depois de duas décadas sob governos de esquerda. Esta foi a primeira eleição presidencial com segundo turno na história boliviana.
Com 91,2% das urnas apuradas, Paz obteve 54,5% dos votos, superando o ex-presidente Jorge Tuto Quiroga, também de direita, porém mais conservador. Durante a campanha, o novo presidente afirmou buscar o apoio dos eleitores frustrados com a esquerda, prometendo propostas moderadas que reduzam a polarização política. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, que governou a Bolívia entre 1989 e 1993, o novo mandatário indicou que pretende manter o diálogo com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em pronunciamento à imprensa local, o vice-presidente eleito, Edman Lara, agradeceu ao povo boliviano e afirmou que seguirá para La Paz a fim de, junto a Paz, “coordenar quais seriam as soluções que devem ser adotadas o mais breve possível para a crise econômica que atinge a Bolívia”.
No campo da segurança pública, Paz tem adotado um discurso mais ameno que o de seus adversários, defendendo o fortalecimento das instituições e do sistema judicial como ferramenta central no combate ao crime organizado. “A justiça é a base para o progresso de qualquer país, e precisamos de instituições fortes e independentes que assegurem a lei para todos”, declarou durante a campanha. Entre suas propostas estão a modernização e profissionalização das Forças Armadas e a “implantação de tecnologias digitais avançadas”, embora sem detalhamento.
Na economia, sua principal bandeira é o programa “capitalismo para todos”, que visa incentivar o setor privado sem abandonar os programas sociais. Prometeu formalizar parte da economia informal, reduzir gastos públicos e descentralizar o Estado. “A Bolívia não é socialista”, disse Paz. “A Bolívia trabalha com capital, trabalha com dinheiro… porque 85% da economia é informal. Não queremos austeridade severa, mas uma economia forte, justa e voltada para gerar oportunidades a todos os bolivianos.”
Economistas, no entanto, questionam a viabilidade das propostas. “O rombo fiscal é imenso. A questão não é se um ajuste virá, mas quão rápido e quão disruptivo ele será”, afirmou Jonathan Fortun, pesquisador do Instituto de Finanças Internacionais, à agência Reuters.
Em relação ao Brasil, Paz destacou que “o Brasil é nosso principal parceiro estratégico”, manifestando o desejo de fortalecer laços no Mercosul com projetos conjuntos de infraestrutura. Quanto aos Estados Unidos, afirmou defender uma “aproximação pragmática”, evitando alinhamentos ideológicos com o presidente norte-americano Donald Trump. “Ideologias não colocam comida na mesa”, disse.
Fora da disputa, o ex-presidente Evo Morales pregou voto nulo e criticou os dois candidatos. “Ambos representam um punhado de pessoas na Bolívia, não representam o movimento popular, muito menos o movimento indígena”, declarou.
Morales, que vive em Cochabamba sob proteção de uma guarda indígena, é alvo de um mandado de prisão por suposto tráfico de menor, acusação que nega. A crise econômica, a escassez de combustíveis e a inflação de 23% contribuíram para o desgaste do Movimento ao Socialismo (MAS), encerrando uma era iniciada por Morales em 2006 e marcada pela queda da produção de gás e pela escassez de divisas no país.




