Doença X: mundo ainda pode não estar preparado para nova pandemia

Doença X é uma infecção desconhecida com risco de pandemia.


A Doença X ainda não existe, mas poderá surgir a qualquer momento. O termo é utilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para designar uma condição infecciosa desconhecida, com potencial de causar epidemias ou, caso se espalhe por diversos países, uma pandemia. Criado em 2017, o conceito pode se referir tanto a um patógeno recém-descoberto quanto a um já conhecido que adquira capacidade pandêmica. Sob essa definição, a COVID-19 foi considerada a primeira Doença X.

O tema voltou ao debate após alertas da OMS a líderes globais durante o Fórum Econômico Mundial. “Alguns dizem que isso pode gerar pânico. Não. É melhor antecipar algo que pode acontecer – porque já aconteceu muitas vezes em nossa história – e se preparar para isso”, afirmou o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Ainda não há como prever qual será a próxima Doença X. Durante anos, os coronavírus foram apontados como os principais candidatos, mesmo antes da pandemia de COVID-19. Casos anteriores, como a SARS em 2002 e a MERS em anos seguintes, demonstraram alto risco de mortalidade, embora tenham sido contidos. No entanto, especialistas destacam que a imunidade adquirida globalmente contra o vírus da COVID-19 pode oferecer alguma proteção cruzada contra outros coronavírus.

Outros patógenos também preocupam, como cepas de gripe, responsáveis por pandemias anteriores, incluindo a gripe espanhola de 1918. Atualmente, uma variante de gripe aviária tem causado surtos em animais e mortes em massa, como o registro de 17 mil filhotes de elefantes-marinhos na Argentina. Vírus como o Ebola e o Zika também permanecem na lista de alto risco da OMS.

Segundo Tedros, a experiência com a COVID-19 fortaleceu a capacidade de resposta, sobretudo pelo avanço das vacinas de mRNA, que podem ser adaptadas rapidamente a novos agentes. Ele reforça, contudo, a necessidade de sistemas de alerta precoce e serviços de saúde mais resilientes. “Quando os hospitais foram levados além de sua capacidade [com a COVID], perdemos muitas pessoas porque não conseguimos administrá-las. Não havia espaço suficiente, não havia oxigênio suficiente.”

Para o diretor-geral, a Doença X deve ser vista como um alerta permanente. “A Doença X é um espaço reservado. Seja qual for a doença, você pode se preparar para ela.”

O debate também envolve especialistas como Michael Osterholm, um dos epidemiologistas mais renomados do mundo. Ele insiste que o coronavírus não foi “o grande problema”. Segundo ele, uma pandemia com taxas de mortalidade muito além da COVID-19 ainda está por vir, e o mundo estaria menos preparado do que nunca para enfrentá-la.

Em seu novo livro, “The Big One: How We Must Prepare for Future Deadly Pandemics”, escrito em coautoria com Mark Olshaker, Osterholm analisa lições de surtos passados, aponta falhas e avanços e projeta o impacto devastador de uma futura crise sanitária. Em entrevista ao site The Advocate, ele destacou sua maior preocupação: o atual colapso do sistema de saúde pública dos Estados Unidos.

“Tudo se resume a uma decisão simples. Vamos basear o que fazemos pela saúde da nossa população na ciência ou vamos recorrer a truques e truques mágicos? E isso seria aceitável se fosse apenas um debate acadêmico. Mas a verdade é que isso é uma questão de vida ou morte”, afirmou.

Osterholm criticou esforços de autoridades federais e estaduais dos EUA para enfraquecer exigências de vacinação e desmantelar os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). “Vocês têm noção do que está acontecendo bem na sua frente? E se vocês não se manifestarem, se manifestarem e convencerem nossos representantes eleitos a lidar com isso, é isso que vai acontecer”, alertou.

Ele comparou os danos ao CDC à devastação de um desastre natural. “Imagine que um furacão de categoria seis acabou de passar pela sua cidade. Sabe quanto tempo vai levar para reconstruí-lo? Muito tempo. Mas é possível reconstruí-lo. É possível, e estou otimista. Mas precisamos reverter isso logo, e se não conseguirmos, talvez cheguemos a um ponto sem volta. Mas, por enquanto, ainda podemos recuperá-lo, mas não será fácil.”

Osterholm, que já aconselhou presidentes americanos e atuou como enviado científico do Departamento de Estado dos EUA, não poupou críticas ao governo de Donald Trump e ao atual Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr. “Sabe, quando se tem uma combinação Trump-Kennedy, esses são os líderes daquele lado da casa, pode-se dizer, que continuam muito poderosos. Onde estão nossos líderes? Quem são eles? O que precisamos fazer para ajudar a população a entender o que realmente está acontecendo?”, questionou.

Ele avaliou que os danos causados ao CDC ainda podem ser revertidos. “Até que, basicamente, a autópsia diga que você está morto, acho que temos motivos para acreditar que podemos fazer isso. Se o Sr. Kennedy não for mais secretário e você trouxer alguém razoável que possa começar a ajudar a reconstruí-lo.”

O epidemiologista classificou como catastrófica a retirada do mRNA pelo governo. “Neste momento, se não tivermos a tecnologia de mRNA disponível no primeiro ano [de uma pandemia de gripe], talvez possamos vacinar até um quarto do mundo. Caso contrário, levará três anos até que possamos vacinar o mundo.”

Apesar dos alertas, Osterholm evita o pessimismo. “O relógio da pandemia está correndo. Só não sabemos que horas são. Mas uma das coisas que tenho a dizer é que nosso país se saiu muito bem depois do 11 de setembro. Aquela comissão analisou e identificou todas as falhas sem apontar o dedo, sem partidarismo. Precisamos desesperadamente disso agora, e isso significa aprender as lições desta pandemia e aplicá-las no futuro.”

Ele também alertou para a redução dos investimentos em saúde pública em outras partes do mundo. “A preparação sempre esteve em nosso cerne. As pessoas tendem a nos seguir. E agora estou preocupado. Por exemplo, a [União Europeia] está cortando investimentos em doenças infecciosas e saúde global porque aumentou sua alocação do PIB para defesa. É um verdadeiro desafio.”

Ainda assim, o epidemiologista reforça que há tempo para agir, desde que os líderes priorizem a ciência em vez da ideologia. “Sabemos que o próximo grande desastre virá. É só uma questão de tempo. A questão é se estaremos prontos ou se tropeçaremos nele com nosso sistema de saúde pública desmantelado e nossas ferramentas abandonadas. É disso que trata este livro. É por isso que estou lutando.”