China prende jornalista por quatro anos por relatar início da COVID-19

A China é atualmente o país que mais prende jornalistas no mundo, com pelo menos 124 detidos.


A jornalista chinesa Zhang Zhan, de 42 anos, foi condenada na sexta-feira (19) a mais quatro anos de prisão, informou a Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Ela já havia cumprido pena de igual duração após documentar as fases iniciais do surto de COVID-19 em Wuhan, epicentro da pandemia.

Zhang foi acusada novamente de “provocar brigas e problemas”, a mesma imputação que levou à sua prisão em dezembro de 2020, quando publicou relatos em primeira mão da cidade central sobre a disseminação inicial do coronavírus, destacou o grupo internacional de liberdade de imprensa.

O Ministério das Relações Exteriores da China não pôde ser contatado imediatamente para comentar, e a agência Reuters não conseguiu determinar se Zhang possuía representação legal. Aleksandra Bielakowska, gerente de advocacy da RSF Ásia-Pacífico, declarou: “Ela deveria ser celebrada globalmente como uma ‘heroína da informação’, não presa em condições brutais de prisão”. Ela acrescentou: “Seu calvário e perseguição devem acabar. É mais urgente do que nunca que a comunidade diplomática internacional pressione Pequim por sua libertação imediata.”

Zhang foi detida inicialmente após meses de publicações, incluindo vídeos de hospitais superlotados e ruas vazias, que apresentavam um quadro mais sombrio da doença do que a narrativa oficial. Seu advogado à época, Ren Quanniu, afirmou que Zhang acreditava estar “sendo perseguida por exercer sua liberdade de expressão”.

No mês seguinte à prisão, Zhang entrou em greve de fome, sendo alimentada à força pela polícia chinesa com um tubo, segundo documentos judiciais vistos pela Reuters e relatos de seus advogados.

Em maio de 2024, Zhang foi libertada, mas foi novamente detida três meses depois e formalmente presa no Centro de Detenção de Pudong, em Xangai, de acordo com a RSF. A sentença de sexta-feira ocorreu após Zhang relatar abusos de direitos humanos na China. Seu ex-advogado informou que as novas acusações se baseavam em comentários feitos por Zhang em sites estrangeiros, afirmando que ela não deveria ser considerada culpada.

As autoridades chinesas nunca especificaram publicamente as atividades pelas quais Zhang foi acusada. Beh Lih Yi, diretora da região Ásia-Pacífico do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, declarou: “Esta é a segunda vez que Zhang Zhan enfrenta julgamento por acusações infundadas que nada mais são do que um flagrante ato de perseguição por seu trabalho jornalístico. As autoridades chinesas devem pôr fim à detenção arbitrária de Zhang, retirar todas as acusações e libertá-la imediatamente.”

A China, um país ditatorial e não democrático, é atualmente o país que mais prende jornalistas no mundo, com pelo menos 124 profissionais detidos, segundo a RSF. O país ocupa a 178ª posição entre 180 países e territórios no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2025.

Uma semana antes da última sentença de Zhang, legisladores chineses aprovaram um projeto de lei que visa acelerar respostas a emergências de saúde pública, permitindo que cidadãos relatem diretamente situações críticas, ignorando a hierarquia tradicional do governo.