EUA fecham maior acordo da história com Japão e isolam ainda mais a China

O acordo prevê US$ 550 bilhões em investimentos japoneses nos EUA e um claro afastamento da influência chinesa na região do Pacífico.


O acordo comercial assinado entre Estados Unidos e Japão, descrito pelo presidente norte-americano, Donald Trump, como “o maior da história”, marca um ponto de inflexão no cenário global. Embora tal classificação possa parecer precoce, o pacto representa a reconfiguração de forças no comércio internacional, favorecendo diretamente a economia americana e impondo obstáculos estratégicos à China.

Após meses de negociações, Washington e Tóquio fecharam um acordo que reduz significativamente tarifas de importação, amplia investimentos e reforça a cooperação em setores sensíveis. A tarifa sobre automóveis japoneses, por exemplo, foi cortada de 27,5% para 15%, o que barateia veículos produzidos por gigantes como Toyota, Nissan e Honda para o consumidor americano. Ao mesmo tempo, carros chineses, que ainda enfrentam altas taxas e desconfiança por parte de reguladores e consumidores, perdem competitividade no maior mercado do mundo.

Além disso, o pacto prevê um aporte de US$ 550 bilhões do Japão nos Estados Unidos, com foco em áreas estratégicas como semicondutores, produtos farmacêuticos e cadeias de suprimentos. O investimento massivo tem duplo efeito: cria empregos nos EUA e reduz a dependência de fornecedores asiáticos, especialmente da China. Para Trump, isso representa um avanço decisivo em direção à “segurança econômica” — conceito que norteia sua política comercial.

Na agricultura, os japoneses se comprometeram a aumentar as compras de arroz e outros produtos dos EUA, beneficiando produtores rurais americanos que vinham enfrentando dificuldades por conta da guerra comercial com Pequim. O acordo também estabelece um modelo de tarifa de 15%, que deve servir de referência para futuras negociações com países como Coreia do Sul e Taiwan, ampliando o alcance geopolítico da medida.

O impacto vai além da economia bilateral. Ao atrair o Japão para um alinhamento estratégico mais profundo, os EUA enfraquecem a influência da China no Indo-Pacífico. Tóquio, que já é o maior investidor estrangeiro nos EUA — com US$ 1,2 trilhão em ativos diretos e mais de US$ 2 trilhões em títulos e fundos — agora se distancia ainda mais de Pequim em termos comerciais e institucionais. O movimento ocorre em um momento em que a União Europeia, outro aliado histórico dos americanos, ainda não conseguiu formalizar um acordo com Washington.

Por outro lado, economias menores da Ásia, como Laos, Camboja e Sri Lanka, podem ficar à margem das novas cadeias de suprimento e investimentos. Esses países, com baixa capacidade de negociação e pouco a oferecer aos EUA, perdem espaço, enquanto Washington prioriza parceiros estratégicos como Japão, Coreia do Sul e Vietnã.

A manutenção de tarifas elevadas sobre aço e alumínio — mantidas em 50% — também favorece o setor industrial americano, limitando a concorrência e fortalecendo a produção nacional. Embora alguns setores nos EUA tenham demonstrado insatisfação, especialmente fabricantes com cadeias produtivas no México e no Canadá, o saldo político e econômico tende a ser amplamente favorável para Washington.

O acordo coloca os EUA novamente no centro das decisões econômicas globais, reposicionando aliados, redesenhando rotas comerciais e, sobretudo, enfraquecendo a influência chinesa em um dos momentos mais tensos da geopolítica internacional recente.