Japão investirá US$ 550 bi nos EUA após acordo que corta tarifas sobre carros

Trata-se do maior acordo comercial da história entre os EUA e o Japão.


Os Estados Unidos e o Japão anunciaram, na terça-feira (22), um novo acordo comercial que prevê a redução de tarifas sobre automóveis e outros produtos japoneses, além de um robusto pacote de investimentos e empréstimos no valor de até US$ 550 bilhões destinados aos EUA por instituições financeiras afiliadas ao governo japonês.

O pacto foi celebrado após semanas de negociações e representa um alívio imediato para o setor automotivo do Japão, responsável por mais de um quarto de todas as exportações japonesas para os Estados Unidos. As tarifas sobre veículos foram reduzidas de 25% para 15%, e impostos que estavam programados para entrar em vigor em 1º de agosto sobre outros produtos japoneses também foram cortados na mesma proporção.

“Acabei de assinar o maior ACORDO COMERCIAL da história com o Japão”, declarou o presidente dos EUA, Donald Trump, por meio de sua plataforma Truth Social. “Este é um momento muito emocionante para os Estados Unidos da América, especialmente pelo fato de que continuaremos a ter um ótimo relacionamento com o Japão”, acrescentou.

O primeiro-ministro japonês, Fumio Ishiba, que, segundo a mídia local, deve renunciar em breve após uma derrota eleitoral no último domingo (20), classificou o acordo como “o menor valor entre os países que têm superávit comercial com os EUA”. Segundo Ishiba, os US$ 550 bilhões incluem empréstimos e garantias para que empresas japonesas desenvolvam cadeias de suprimentos resilientes em setores-chave como produtos farmacêuticos e semicondutores. Ele também mencionou a possibilidade de ampliação das compras de arroz norte-americano, embora tenha garantido que a agricultura japonesa não será sacrificada.

O anúncio impulsionou os mercados financeiros no Japão, com o índice Nikkei registrando alta de 2,6%, alcançando o maior patamar em um ano. As ações da Toyota subiram mais de 11%, enquanto Honda e Nissan avançaram mais de 8% cada. O otimismo também afetou os papéis de montadoras sul-coreanas, diante da expectativa de um acordo semelhante com a Coreia do Sul.

Nos Estados Unidos, no entanto, o pacto foi recebido com críticas por parte da indústria automotiva. Matt Blunt, presidente do Conselho Americano de Política Automotiva — que representa as americanas GM, Ford e Stellantis — criticou o acordo por prever tarifas mais baixas sobre carros japoneses, com pouco conteúdo americano, do que aquelas aplicadas a veículos produzidos no Canadá e no México. “Qualquer acordo que cobre uma tarifa menor para importações japonesas com praticamente nenhum conteúdo americano do que a tarifa imposta a veículos fabricados na América do Norte com alto conteúdo americano é um mau negócio para a indústria e os trabalhadores automotivos dos EUA”, afirmou Blunt.

Em 2024, os EUA importaram mais de US$ 55 bilhões em veículos e peças automotivas do Japão, mas venderam apenas US$ 2 bilhões em automóveis ao mercado japonês. O comércio bilateral totalizou quase US$ 230 bilhões no mesmo ano, com superávit japonês de cerca de US$ 70 bilhões. O Japão figura como o quinto maior parceiro comercial dos Estados Unidos, segundo o U.S. Census Bureau.

O anúncio foi feito após reunião entre Trump e Ryosei Akazawa, principal negociador de tarifas do Japão, na Casa Branca. “Missão Cumprida”, escreveu Akazawa em sua conta na rede X, acrescentando que o acordo não abrange exportações japonesas de aço e alumínio, ainda sujeitas a uma tarifa de 50%, nem contempla compromissos orçamentários na área de defesa.

Para analistas, o pacto representa um alívio importante para a economia japonesa, diante das ameaças tarifárias unilaterais de Trump. “Com a tarifa de 15%, espero que a economia japonesa evite a recessão”, avaliou Kazutaka Maeda, do Instituto de Pesquisa Meiji Yasuda.

O Japão é hoje o maior investidor estrangeiro nos EUA. Dados do Banco do Japão apontam que o país tinha, até o fim de 2024, US$ 1,2 trilhão em investimento direto no território americano, e os fluxos de capital japonês totalizaram US$ 137 bilhões na América do Norte apenas no ano passado.

Considerando o total de ativos em títulos e fundos, o valor ultrapassa US$ 2 trilhões.

Falando novamente na Casa Branca, Trump afirmou que Japão e EUA estão prestes a concluir um acordo para formar uma joint venture que viabilize a construção de um gasoduto de GNL no Alasca. “Concluímos um acordo… e agora vamos concluir outro porque eles estão formando uma joint venture conosco no Alasca, como vocês sabem, para o GNL”, disse Trump. “Eles estão prontos para fechar esse acordo agora.”

O presidente norte-americano tem intensificado os esforços para concluir uma série de acordos comerciais antes de 1º de agosto, data-limite que vem sendo adiada repetidamente devido à pressão de mercados e à atuação de lobistas. Até lá, novos pacotes tarifários poderão entrar em vigor, somando-se às medidas já implementadas desde o início de sua gestão.

Além do Japão, Trump já anunciou acordos-quadro com Reino Unido, Vietnã e Indonésia, e interrompeu uma disputa tarifária com a China, embora os detalhes desses pactos ainda estejam em negociação. Nesta quarta-feira (23), negociadores da União Europeia devem se reunir com representantes do governo dos EUA em Washington.