EUA mais fortes e dólar mais fraco: a nova ordem de Trump

Trump e seus conselheiros acreditam que o dólar está “artificialmente forte”.


A expressão “Acordo de Mar-a-Lago” foi cunhada em junho de 2024 por Zoltan Poszar, renomado analista do mercado monetário dos Estados Unidos e ex-estrategista do Credit Suisse. A proposta parte da hipótese de que os Estados Unidos poderiam utilizar seu poder geopolítico para induzir outros países a aceitarem um dólar mais fraco e menores retornos sobre os títulos do Tesouro americano, em troca da manutenção da proteção militar provida por Washington. O termo remete diretamente ao “Acordo de Plaza”, de 1985, no qual França, Japão, Alemanha Ocidental, Reino Unido e EUA acordaram um esforço conjunto para desvalorizar o dólar. A substituição simbólica do Plaza Hotel, antigo imóvel de Donald Trump em Nova York, pelo resort Mar-a-Lago, atual residência do presidente norte-americano na Flórida, adiciona um elemento retórico marcante à ideia.

A proposta voltou a ganhar destaque por meio do então estrategista da Hudson Capital, Stephen Miran, que aprofundou o conceito em um artigo publicado em novembro de 2024. Embora pouco notado à época, o texto ganhou relevância após Miran ser nomeado presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Trump. O artigo oferece uma base teórica para muitas das políticas econômicas e de segurança que vêm sendo implementadas ou defendidas pela equipe do presidente.

Segundo essa linha de pensamento, a força excessiva do dólar é a principal responsável pela desindustrialização dos Estados Unidos e pela consequente perda de empregos industriais bem remunerados. O status do dólar como moeda de reserva global gera uma valorização artificial da divisa, tornando as exportações americanas menos competitivas e incentivando a importação de produtos estrangeiros. Essa dinâmica teria tornado os Estados Unidos dependentes de outras nações para suprir suas necessidades básicas, especialmente em setores estratégicos. Ao mesmo tempo, o papel de liderança militar global atribuído aos EUA acarreta altos custos com defesa, ampliando o déficit fiscal e a dívida pública — uma dívida que, por ora, é sustentada justamente pelo privilégio da moeda de reserva.

Para reverter esse quadro, a proposta sugere a promoção de uma política monetária mais fraca e restrições às importações, com o objetivo de revitalizar a indústria nacional. Outro elemento central seria o reequilíbrio dos encargos de defesa: os aliados dos EUA seriam pressionados a assumir uma parcela maior desses custos, além de aceitarem rendimentos mais baixos sobre os títulos americanos em troca da contínua proteção militar. Países que se recusarem a aceitar tais condições seriam excluídos desses benefícios.

Entre os instrumentos mais relevantes para essa mudança estão as tarifas. Ao elevar tarifas de importação, os EUA poderiam forçar empresas estrangeiras a transferir cadeias de produção para o território americano, gerando empregos e fortalecendo a base industrial local. As receitas provenientes dessas tarifas também ajudariam a reduzir o déficit fiscal e abririam espaço para cortes tributários — o que, por sua vez, tornaria os investimentos nos EUA mais atrativos. Além disso, a ameaça de tarifas funcionaria como uma alavanca para forçar concessões em questões como segurança, imigração e combate ao narcotráfico.

Embora Donald Trump não tenha mencionado explicitamente a criação de um novo acordo nos moldes do Plaza Accord, suas políticas caminham nessa direção. A ameaça de retirada dos EUA da OTAN e a aproximação com a Rússia, por exemplo, já impulsionaram os gastos militares da Europa. Do mesmo modo, o aumento de tarifas tem incentivado empresas multinacionais a investir nos Estados Unidos. O dólar também registrou um enfraquecimento relativo, em grande parte devido ao redirecionamento de capitais globais para fora dos ativos americanos.

Até o momento, a ideia mais radical — reestruturar a dívida pública dos EUA — não foi levada adiante.

Medidas como impostos sobre cupons, extensão dos prazos para 100 anos ou a redução dos rendimentos pagos aos detentores de títulos poderiam ter efeitos graves sobre a estabilidade do sistema financeiro global, dada a centralidade dos títulos do Tesouro dos EUA nos mercados. Mesmo que tais medidas se limitassem a detentores estrangeiros, não seriam suficientes para corrigir o nível total da dívida pública, já que a maior parte desses papéis é mantida por investidores domésticos.

Assim, ainda que vários elementos do chamado “Acordo de Mar-a-Lago” já estejam em curso de forma fragmentada, é improvável que vejamos um acordo coordenado internacionalmente, como ocorreu em 1985. O cenário atual é muito mais complexo: moedas flutuantes, mercados financeiros integrados e a perda de controle direto por parte dos bancos centrais tornam difícil manipular o valor do dólar de maneira concertada. Uma reestruturação da dívida, por exemplo, poderia enfraquecer o dólar drasticamente, mas ao custo de severas disfunções no sistema financeiro.

Independentemente de haver ou não um acordo formal, a tendência é que as políticas defendidas por Trump resultem, ao longo do tempo, em um dólar mais fraco. Um país mais isolacionista tende a atrair menos investimentos estrangeiros, crescer em ritmo mais lento e adotar políticas fiscais mais restritivas. Ao mesmo tempo, o aumento dos gastos com defesa e infraestrutura na Europa deve estreitar a distância econômica entre os blocos, abrindo espaço para novos fluxos de investimento fora dos Estados Unidos.

E COMO ISSO AFETA A CHINA?

Caso a estratégia delineada no chamado “Acordo de Mar-a-Lago” se consolide, a China pode enfrentar consequências significativas, ainda que indiretas. A ideia central — de enfraquecer o dólar e reindustrializar os Estados Unidos por meio de tarifas e política externa assertiva — atinge em cheio o modelo de crescimento chinês, amplamente sustentado pelas exportações para o mercado americano.

Com tarifas mais agressivas e estímulos à produção interna, os Estados Unidos podem reduzir a dependência de bens manufaturados chineses, afetando a cadeia de suprimentos que sustentou a ascensão industrial da China nas últimas décadas. Além disso, o incentivo à realocação de fábricas para solo americano ou para países aliados ameaça a posição estratégica da China como “fábrica do mundo”.

Outro impacto relevante seria o enfraquecimento do dólar. Embora isso, em tese, alivie o custo da dívida externa de países emergentes, também reduz o valor dos ativos em dólar mantidos pela China — especialmente seus vastos estoques de títulos do Tesouro americano. Um dólar mais fraco e juros artificiais mais baixos podem representar uma desvalorização patrimonial para Pequim.

Por fim, ao vincular segurança militar ao acesso ao mercado americano e aos títulos soberanos, os EUA podem reorganizar alianças estratégicas, isolando a China no plano geopolítico. Isso limita sua capacidade de influenciar países em desenvolvimento por meio de investimentos, ao mesmo tempo em que fortalece o bloco ocidental, reacendendo dinâmicas típicas da Guerra Fria.