Microsoft fecha escritórios e reduz presença na China

A retração ocorre em meio às disputas entre os EUA e a China.


A gigante norte-americana Microsoft, que há pouco mais de uma década considerava impensável deixar a China, vem reduzindo sua presença no país diante do aumento das tensões geopolíticas entre Washington e Pequim. Segundo cinco fontes ouvidas pela agência Reuters, a companhia adotou uma estratégia de retração, embora não tenha planos atuais de abandonar o mercado chinês.

Nos últimos cinco anos, ao menos 15 escritórios e joint ventures da Microsoft na China foram fechados, segundo registros corporativos. Em 2023, a empresa chegou a considerar deixar o país, após executivos avaliarem que os riscos geopolíticos eram elevados em relação ao retorno econômico obtido. Em 2024, a China representava apenas 1,5% da receita global da Microsoft.

A deterioração das relações entre Estados Unidos e China afetou os negócios da companhia. Desde 2017, Pequim incentiva o uso de softwares domésticos, considerados pelos chineses mais seguros e cada vez mais competitivos em relação ao Windows e ao Office, da Microsoft. Ao mesmo tempo, restrições americanas à exportação de tecnologias avançadas dificultaram a expansão dos negócios de inteligência artificial e computação em nuvem da Microsoft no país.

A companhia decidiu permanecer na China, em parte, por manter um negócio lucrativo voltado para empresas chinesas com operações internacionais, como a ByteDance, dona do TikTok. Essas companhias utilizam tecnologias ocidentais para administrar seus negócios no exterior. A Microsoft também considera importante manter acesso ao mercado chinês de profissionais qualificados em engenharia.

A relação da Microsoft com o governo chinês remonta aos anos 1990. Bill Gates visitou o país pela primeira vez em 1994 e, desde então, a companhia buscou estreitar os vínculos com as autoridades. A empresa chegou a desenvolver uma versão do Windows 10 destinada ao governo chinês, negociada pelo CEO Satya Nadella com autoridades do Ministério das Finanças da China.

O produto foi adotado por algumas agências governamentais, mas não alcançou os resultados esperados. Desde 2017, Pequim também estabeleceu diretrizes para a aquisição de serviços considerados “seguros e confiáveis”. Segundo a Microsoft, nenhum sistema operacional estrangeiro, incluindo o Windows, é considerado compatível com essas políticas.

A Reuters analisou seis guias chineses de compras de sistemas governamentais publicados entre dezembro de 2023 e maio de 2026. Cinco não recomendaram produtos da Microsoft. O sexto mencionou o Windows 10 China Government Edition, mas informou que seu uso estaria sujeito a “requisitos adicionais de gestão”.

Diante desse cenário, a Microsoft passou a concentrar parte dos negócios em empresas chinesas que atendem consumidores estrangeiros. Companhias como ByteDance e Shein utilizam o serviço de nuvem Azure para administrar dados em conformidade com regulamentações internacionais. A Microsoft também oferece a clientes empresariais chineses acesso, por meio do Azure, a modelos ocidentais de inteligência artificial.

A estratégia, porém, enfrenta novos desafios. Modelos chineses de IA, como o Kimi, estão cada vez mais competitivos e têm custos menores, reduzindo a necessidade de utilização do Azure.

As tensões geopolíticas também afetaram a área de pesquisa. Restrições americanas à exportação de chips e modelos de IA limitaram o acesso dos engenheiros da Microsoft na China a tecnologias avançadas. A empresa chegou a considerar o fechamento de seu laboratório de pesquisa no país, mas decidiu transferir parte dos profissionais para outras unidades.

Em 2024, a Microsoft ofereceu a cerca de 1.000 engenheiros a possibilidade de transferência para os Estados Unidos e outros três países ocidentais. Segundo fontes da Reuters, aproximadamente um terço aceitou. Muitos profissionais preferiram permanecer na China e migraram para universidades e empresas locais.

Apesar da redução de sua presença, a Microsoft afirma que permanece comprometida com o mercado chinês e que suas operações seguem um ambiente regulatório aplicável a fornecedores internacionais.


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