O Reino Unido aprovou, nesta terça-feira (20), a construção de uma megaembaixada chinesa no país, ignorando diversos alertas de segurança e de possível espionagem por parte de Pequim.
Ao aprovar os planos da China para a construção de uma megaembaixada em Londres, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, aposta no fortalecimento dos laços comerciais e na atração de investimentos chineses, ao mesmo tempo em que corre o risco de irritar setores políticos no Reino Unido e nos Estados Unidos.
A intenção de Pequim de erguer a maior embaixada chinesa da Europa, em uma área central e histórica da capital britânica, tornou-se um ponto sensível nas relações bilaterais, colocando à prova a capacidade do governo britânico de equilibrar riscos à segurança nacional e interesses econômicos em sua relação com a China.
O governo ignorou alertas de parlamentares britânicos e americanos, de moradores da região e de ativistas pró-democracia de Hong Kong radicados no Reino Unido, que afirmam que o novo edifício poderia ser utilizado como base para atividades de espionagem e para a intimidação de dissidentes chineses, que fugiram da China em meio às perseguições do regime.
Desde que assumiu o cargo em 2024, Starmer tem priorizado a revitalização da economia britânica e busca estreitar os laços com a China como forma de impulsionar o investimento estrangeiro e cumprir a promessa de campanha de elevar o padrão de vida da população britânica.
Políticos americanos manifestaram oposição à nova localização da embaixada, situada próxima a cabos subterrâneos sensíveis de comunicação, questionando possíveis implicações de segurança para um dos parceiros dos Estados Unidos na aliança de inteligência Five Eyes, que inclui ainda Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
“Isto será visto pelo que é: uma base para atividades hostis dentro do Reino Unido”, afirmou Tom Tugendhat, ministro da Segurança do último governo conservador britânico, à agência Reuters. “Receio que isto seja mais um indício de que este governo britânico não tem a mínima ideia do PCC (Partido Comunista Chinês) com quem está lidando.”
A China possui atualmente 146 diplomatas registrados na Grã-Bretanha, número inferior apenas ao dos Estados Unidos, segundo registros oficiais. Críticos do projeto afirmam que a ampliação da embaixada implicará um aumento significativo do número de funcionários diplomáticos e, consequentemente, de agentes de inteligência.
Moradores locais afirmaram que pretendem ingressar com uma ação judicial, alegando que a decisão seria ilegal caso o governo britânico tenha oferecido garantias privadas à China antes da conclusão formal do processo de planejamento.
Seis funcionários britânicos, atuais e antigos, disseram à Reuters que grande parte dos temores relacionados à espionagem é exagerada ou passível de controle. Segundo eles, a consolidação das atuais instalações diplomáticas chinesas, hoje espalhadas por Londres, poderia facilitar o monitoramento de atividades suspeitas.
Eles destacaram que perdas inesperadas de sinal em cabos costumam ser rapidamente detectadas, que linhas sensíveis podem ser redirecionadas e que informações críticas são criptografadas. Também afirmaram que boa parte da atividade de espionagem chinesa ocorre a partir do território chinês, sobretudo por meios cibernéticos, e que muitos agentes atuam em empresas, centros de pesquisa e universidades, e não em embaixadas.
A embaixada da China em Londres acusou autoridades britânicas de exagerarem os temores sobre espionagem e ataques cibernéticos.
A decisão evidencia os dilemas enfrentados pela Grã-Bretanha ao lidar com a China, vista simultaneamente como adversária estratégica e potencial fonte de apoio econômico, em um momento em que os Estados Unidos, sob Donald Trump, ameaçam impor novas tarifas em meio à disputa envolvendo a Groenlândia.
Espera-se que Starmer viaje à China ainda neste mês, acompanhado por uma delegação empresarial, após Pequim sinalizar que a visita estaria condicionada à aprovação da nova embaixada.
A medida pode tornar o primeiro-ministro mais vulnerável a críticas internas e tensionar a relação com o principal aliado de Londres, Washington, em um contexto no qual pesquisas indicam que Starmer enfrenta baixos índices de popularidade.
Em um debate parlamentar recente, 30 membros se manifestaram contra a expansão da embaixada chinesa, sem que houvesse manifestações favoráveis. Julian Lewis, ex-presidente da comissão de inteligência do Parlamento britânico, afirmou que jamais havia presenciado um ambiente tão hostil ao longo de quase três décadas de atuação legislativa.
Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, está entre os políticos americanos que expressaram preocupação com o projeto.
Nicholas Eftimiades, ex-oficial de inteligência dos EUA e especialista em inteligência chinesa, alertou que os riscos podem estar sendo subestimados. “Os EUA possuem capacidades de inteligência várias ordens de magnitude maiores que as do Reino Unido e, no entanto, são incapazes de neutralizar eficazmente a coleta de informações da China”, disse.
Ativistas pró-democracia de Hong Kong figuram entre os opositores mais veementes à expansão. Chloe Cheung, que recebeu visto especial britânico após deixar Hong Kong e é alvo de um mandado de captura emitido pela China, afirmou sentir-se traída. Para ela, a nova embaixada transmitirá uma mensagem de intimidação aos dissidentes. “Pensei que o Reino Unido seria um porto seguro”, afirmou.




