Homem-bomba mata 12 e Paquistão declara “estado de guerra”

Paquistão acusou o Afeganistão de envolvimento no ataque, o que Cabul negou.


Um homem-bomba matou 12 pessoas em Islamabad, capital do Paquistão, nesta terça-feira (11), em meio a uma escalada expressiva da violência militante que, segundo o ministro da Defesa do país, colocou a nação em um “estado de guerra”. Autoridades paquistanesas acusaram o Afeganistão de cumplicidade no ataque, acusação rejeitada por Cabul, e prometeram retaliação caso o governo afegão não consiga conter os combatentes que Islamabad considera responsáveis. “Estamos em estado de guerra”, afirmou o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, após o atentado, o primeiro contra civis na capital paquistanesa em uma década. “Trazer esta guerra para Islamabad é uma mensagem de Cabul, à qual o Paquistão tem todo o poder para responder.”

O episódio ocorre em um momento de tensão generalizada. O Paquistão trava disputas simultâneas com o Afeganistão e a Índia, tendo enfrentado uma guerra de quatro dias com Nova Déli em maio e realizado, no mês passado, ataques aéreos em território afegão, inclusive em Cabul, alegando a presença de militantes paquistaneses. Confrontos fronteiriços foram seguidos por negociações sem avanços. Até a última atualização desta notícia, nenhum grupo havia reivindicado a autoria do ataque desta terça-feira, ocorrido em frente a um movimentado tribunal de primeira instância. A explosão ocorreu horas depois de militantes invadirem uma escola perto da fronteira afegã, matando três pessoas.

Na noite desta terça-feira, horário local, os agressores permaneciam entrincheirados dentro do complexo escolar, enquanto cerca de 500 alunos e funcionários estavam isolados em outra parte do prédio. O Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), principal grupo jihadista paquistanês, negou envolvimento nos atentados.

Segundo o Armed Conflict Location and Event Data — um banco de dados internacional que monitora violência política e conflitos em dezenas de países — Islamabad não registrava ataques a civis há dez anos. O governo paquistanês afirma que militantes do TTP e de outros grupos operam a partir do Afeganistão, com apoio da Índia. “Temos plena consciência de que o Afeganistão precisa detê-los. Caso isso não aconteça, não teremos outra opção senão lidar com os terroristas que estão atacando nosso país”, declarou o ministro do Interior, Mohsin Naqvi, no local do atentado ao tribunal.

Naqvi disse que os responsáveis pelo ataque à escola estavam em contato com mentores no Afeganistão. Ele afirmou que a investigação busca identificar eventuais apoiadores do atentado ao tribunal e ressaltou que um ataque em Islamabad “transmitia muitas mensagens”. Cabul afirmou, em nota, “profunda tristeza e condenação” pelos ataques e manteve a negativa de que seu território seja usado para ações contra outros países.

A Índia também rejeita fornecer apoio a militantes. Os atentados no Paquistão ocorreram um dia após uma explosão na capital indiana que deixou oito mortos. Analistas afirmam que novas facções militantes surgiram recentemente, com o objetivo de permitir ao TTP negar envolvimento direto. “Eles estão enviando um sinal: se houver greves em Cabul, Islamabad não estará segura”, disse o pesquisador Abdul Basit à agência Reuters. “E estão sinalizando que podem mudar seu modus operandi para a violência indiscriminada.”

Segundo Naqvi, o ataque suicida ao tribunal deixou 27 feridos, alguns em estado grave. O agressor tentou entrar no edifício, mas, ao não conseguir, detonou os explosivos próximo a uma viatura policial. Imagens locais mostraram veículos em chamas e pessoas feridas no chão.

No caso da escola em Wana, o ataque começou na segunda-feira (10) com a detonação de um veículo suicida, seguida pela invasão do complexo. Militares informaram que três militantes permaneciam no local na noite desta terça-feira, horário local, enquanto operações de resgate continuavam. Especialistas afirmam que o ataque parece ter buscado replicar o massacre de 2014, que deixou mais de 130 crianças mortas em uma escola administrada pelo Exército no noroeste do país.