EUA e Taiwan fazem mega-acordo para a produção de chips

Taiwan tem um grande déficit comercial com os EUA, de cerca de 90%.


Os Estados Unidos anunciaram, na quinta-feira (15), um mega-acordo comercial com Taiwan que prevê o compromisso de Taipei de investir US$ 250 bilhões (aproximadamente R$ 1,3 trilhão) na fabricação de semicondutores e tecnologia em território norte-americano, em troca da redução de tarifas dos Estados Unidos sobre importações da ilha. O entendimento encerra meses de negociações centradas na estratégica indústria de chips de Taiwan, peça-chave da cadeia global de suprimentos de tecnologia.

Desde abril do ano passado, a equipe taiwanesa, liderada pelo vice-primeiro-ministro Cheng Li-chiun e pela chefe da representação comercial, Yang Jen-ni, realizou seis viagens a Washington para concluir o acordo histórico, que o governo Trump classificou como um passo essencial para “restaurar a liderança americana na fabricação de semicondutores”.

Em Taiwan, as autoridades agora enfrentam o desafio de convencer a opinião pública, preocupada com os impactos do acordo sobre um setor central da economia local. Além de empregos e receitas, a indústria de semicondutores é vista como um ativo estratégico, frequentemente apontado como um fator de dissuasão diante de uma eventual agressão da China, que reivindica a ilha democrática de Taiwan como parte de seu território.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vinha pressionando Taiwan a flexibilizar o controle sobre semicondutores avançados e a transferir parte da produção para os Estados Unidos. O país asiático mantém um dos maiores déficits comerciais com os EUA, e cerca de 90% desse déficit é atribuído a chips e eletrônicos, segundo autoridades taiwanesas. “Vamos importar tudo para que nos tornemos autossuficientes na capacidade de fabricação de semicondutores”, disse Howard Lutnick, secretário de Comércio do governo Trump, em entrevista na quinta-feira.

Além dos investimentos privados, os dois lados concordaram que o governo de Taiwan oferecerá US$ 250 bilhões adicionais em garantias de crédito para apoiar a expansão de empresas menores da cadeia de suprimentos de chips nos Estados Unidos. Washington também anunciou a redução da tarifa de importação sobre produtos taiwaneses de 20% para 15%. Embora a medida alinhe Taiwan a países como Japão e Coreia do Sul, representantes do setor alertam que o percentual ainda pesa sobre indústrias tradicionais. “Quinze por cento ainda é muito alto”, afirmou Darson Chiu, diretor-geral da Confederação das Câmaras de Comércio e Indústria da Ásia-Pacífico. “Suas margens de lucro não são tão altas.”

A maior fabricante de chips de Taiwan, a TSMC, já havia se comprometido, em março de 2025, a investir US$ 100 bilhões para expandir suas operações no estado americano do Arizona, valor incluído no montante total do acordo. A empresa anunciou novos projetos no país e reforçou que a expansão responde à demanda de clientes globais, como Apple e Nvidia, ambas americanas, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial (IA).

Apesar disso, persistem dúvidas em Taiwan sobre os benefícios de longo prazo da transferência de produção para os EUA. Para críticos, o fortalecimento da cadeia americana não garante maior segurança à ilha. Como resumiu Dachrahn Wu, da Universidade Nacional Central: “Se os EUA têm sua própria cadeia de suprimentos, por que precisariam proteger Taiwan?”.