NASA divulga imagem de iceberg azulado gigante que deve se desintegrar

O iceberg A-23A desprendeu-se da Antártida em 1986.


O derretimento acelerado está transformando um dos maiores e mais longevos icebergs já registrados pela ciência em um bloco azulado, marcado pelo acúmulo de água de degelo. Imagens divulgadas nesta semana pela Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, indicam que o iceberg A-23A, desprendido da Antártida em 1986, pode se desintegrar completamente nos próximos dias ou semanas.

Segundo cientistas que monitoram o fenômeno por satélite, a água acumulada na superfície está pressionando fissuras internas e acelerando a fragmentação da estrutura, que atualmente tem menos de um terço de sua área original.

O A-23A se soltou da Plataforma de Gelo Filchner, na Antártida, há quase quatro décadas. À época do desprendimento, tinha cerca de 4.000 km² — uma área superior ao dobro do município de São Paulo. Dados recentes do Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos indicam que, no início de janeiro de 2026, sua área havia encolhido para 1.182 km², após sucessivas quebras ao longo de 2025.

Apesar da redução, o iceberg ainda figura entre os maiores em circulação no oceano. Imagens captadas em 26 de dezembro de 2025 pelo satélite Terra, da NASA, revelam extensas piscinas de água azul sobre sua superfície, um indicativo clássico de fragilidade estrutural.

A coloração azulada não está associada a tinta ou sedimentos, mas à água de degelo acumulada em depressões naturais do gelo. De acordo com o cientista Ted Scambos, da Universidade do Colorado Boulder, nos EUA, o peso dessa água pressiona fissuras internas, favorecendo sua abertura e aumentando o risco de colapso. Além disso, formou-se ao redor do A-23A um fenômeno conhecido como “rampa-fosso”, no qual as bordas do iceberg se curvam levemente para cima à medida que derretem na linha d’água, criando uma barreira que retém ainda mais água sobre o gelo.

Padrões lineares azuis e brancos visíveis nas imagens também chamaram a atenção dos pesquisadores. Segundo especialistas do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA, essas faixas são estrias formadas há centenas de anos, quando o gelo ainda integrava uma geleira que raspava o leito rochoso da Antártida. Esses sulcos e elevações hoje funcionam como “canais”, direcionando o fluxo da água de degelo e concentrando o desgaste.

As imagens também sugerem que o iceberg já começou a liberar água doce no oceano. Uma área esbranquiçada ao lado do A-23A pode indicar um “blowout”, quando a pressão interna rompe a lateral do gelo, liberando uma descarga que despenca dezenas de metros até o mar. Esse tipo de vazamento é considerado um sinal de que o iceberg entrou em sua fase final.

Os cientistas avaliam que o A-23A dificilmente sobreviverá ao verão do hemisfério sul. Ele já se encontra em águas próximas de 3 °C e segue correntes que o empurram para regiões mais quentes, conhecidas como um “cemitério de icebergs”. Após permanecer encalhado por mais de 30 anos no mar de Weddell, o iceberg se soltou em 2020, girou por meses em um vórtice oceânico e avançou lentamente para o norte, passando próximo à ilha da Geórgia do Sul, até alcançar o oceano aberto, onde passou a se fragmentar de forma acelerada.

Para pesquisadores que acompanharam sua trajetória ao longo de décadas, o fim do A-23A é esperado, mas simbólico. Segundo a NASA, sua longa jornada contribuiu para o avanço do entendimento científico sobre o comportamento dos chamados “megabergs”, enormes blocos de gelo que se desprendem periodicamente da Antártida. Mesmo com o possível desaparecimento do A-23A, outros grandes icebergs permanecem estacionados ou à deriva ao redor do continente, aguardando o início de trajetórias semelhantes.