Em um país acostumado a transformar o futebol em patrimônio cultural, poucas discussões despertam tanta paixão quanto a formação da Seleção Brasileira. Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, o tão discutido debate sobre a eventual convocação de Neymar transcende estatísticas e rivalidades clubísticas: trata-se de avaliar, com racionalidade, se o maior talento brasileiro de sua geração ainda possui lugar no principal palco do futebol. A resposta, embora cercada de ressalvas, é sim.
A convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo FIFA de 2026 — que acontecerá nos Estados Unidos, Canadá e México — ocorre na segunda-feira (18), no Rio de Janeiro.
A convocação de Neymar não deve ser interpretada como um gesto de nostalgia ou gratidão pelos serviços prestados. Em seleções nacionais de alto rendimento, espaço não se conquista por currículo, mas por capacidade técnica e potencial de contribuição. E, nesse aspecto, Neymar ainda oferece atributos raros ao futebol brasileiro: criatividade, leitura de jogo, liderança técnica e capacidade de decidir partidas em cenários de pressão.
Mesmo após uma sequência de lesões e longos períodos de inatividade, o camisa 10 segue sendo o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira e um dos poucos jogadores brasileiros com experiência consolidada em jogos eliminatórios de Copa do Mundo. Em um elenco jovem, repleto de talento, mas frequentemente criticado pela falta de personalidade nos momentos decisivos, a presença de um jogador acostumado ao peso da responsabilidade pode representar um diferencial silencioso e valioso.
É verdade que o histórico recente de Neymar inspira cautela. As limitações físicas e as recorrentes lesões levantam questionamentos legítimos sobre sua capacidade de suportar a intensidade de um torneio curto e exaustivo. O próprio técnico da Seleção, Carlo Ancelotti, tem afirmado que qualquer decisão será baseada exclusivamente em desempenho e condição física, e não em simbolismo ou pressão popular.
Mas há uma diferença fundamental entre defender Neymar como titular absoluto e defender sua convocação. A Seleção não precisa mais girar em torno dele, como ocorreu em ciclos anteriores. O Brasil de hoje possui talentos capazes de dividir responsabilidades. Nesse contexto, Neymar poderia ocupar um papel mais estratégico: um jogador de impacto, capaz de desequilibrar partidas específicas, orientar atletas mais jovens e oferecer repertório técnico em confrontos travados.
Além disso, ignorar Neymar exclusivamente pelo fator idade ou pelo desgaste recente seria um erro comum em Copas do Mundo: subestimar o peso da experiência. Grandes seleções historicamente equilibram juventude e maturidade. Jogadores veteranos frequentemente se tornam peças fundamentais não pela intensidade física, mas pela inteligência competitiva e pela capacidade de manter a serenidade quando o torneio cobra seu preço emocional.
Naturalmente, sua convocação deve estar condicionada a critérios claros: ritmo de jogo, regularidade e plena condição médica. Não há espaço para improvisações sentimentais em um Mundial. Porém, com um Neymar apto e competitivo, deixá-lo fora da lista seria abrir mão, voluntariamente, de um talento que poucos países no mundo possuem.
O Brasil não precisa do Neymar de 2014 ou do auge em Barcelona e Paris. Precisa de um Neymar funcional, comprometido e saudável. E, caso esse cenário se confirme, convocá-lo não será um prêmio ao passado, mas uma decisão técnica coerente com a ambição de conquistar o tão aguardado hexacampeonato brasileiro.




