Alemanha elaborou plano secreto de guerra contra a Rússia, diz documento

O documento, de 1,2 mil páginas, foi elaborado há cerca de dois anos e meio pelo alto comando do Exército Alemão.


Rodovias convertidas em pistas de pouso para aviões, acampamentos militares erguidos em duas semanas e uma logística capaz de deslocar 800 mil soldados alemães, americanos e de outros países da OTAN. Esses são alguns dos eixos do OPLAN DEU, o plano secreto elaborado pela Alemanha para reagir a um eventual ataque da Rússia em um futuro próximo, segundo reportagem publicada na quarta-feira (26) pelo jornal americano The Wall Street Journal (WSJ).

O documento, com 1,2 mil páginas, foi formulado há cerca de dois anos e meio por integrantes do alto comando do Exército Alemão. De início, oficiais acreditavam que a Rússia só estaria preparada para atacar a OTAN a partir de 2029. Entretanto, episódios recentes de sabotagem, espionagem e violações do espaço aéreo europeu, atribuídos a Moscou, levantaram a possibilidade de que uma agressão russa ocorra antes do previsto. Um eventual cessar-fogo na guerra contra a Ucrânia, pressionado pelos Estados Unidos, também poderia permitir à Rússia reunir recursos e tempo para investir contra aliados da OTAN, apontam analistas ouvidos pelo jornal.

A Alemanha ocuparia posição central no conflito devido à sua localização geográfica. Com os Alpes funcionando como barreira natural, tropas e suprimentos da OTAN precisariam atravessar o território alemão para alcançar a Europa Oriental. O plano detalha rotas ferroviárias, rodoviárias e portuárias, além de prever como soldados e veículos seriam protegidos, abastecidos e alojados durante esse deslocamento.

O OPLAN DEU também tem caráter dissuasório: seu objetivo é demonstrar claramente à Rússia que qualquer ataque contra o bloco não seria bem-sucedido. “O objetivo é prevenir a guerra deixando bem claro para nossos inimigos que, se eles nos atacarem, não serão bem-sucedidos”, afirmou ao jornal um oficial de alto escalão e coautor do plano.

A reportagem destaca que um dos principais obstáculos é a mentalidade alemã pós-Guerra Fria, marcada por um “otimismo pacífico” que reduziu investimentos em infraestrutura de uso dual. Durante a Guerra Fria, várias autobahns — rodovias federais alemãs, reconhecidas internacionalmente pela alta qualidade e pelo excelente estado de conservação — foram projetadas para servir como pistas de pouso, com guarda-corpos removíveis, divisórias centrais destacáveis, tanques subterrâneos de combustível e estruturas para montagem rápida de torres de controle. Estradas construídas após os anos 1990, porém, já não mantêm essas características.

O governo alemão estima que 20% das rodovias e 25% das pontes necessitam de reformas para suportar veículos militares pesados. Nos portos do Mar do Norte e do Báltico, calcula-se a necessidade de investimentos de 15 bilhões de euros (R$ 93 bilhões), sendo 3 bilhões destinados exclusivamente à infraestrutura de uso dual — algo que pode servir simultaneamente a fins civis e militares. O plano também prevê maior integração com o setor privado. Empresas de defesa europeias, como a Rheinmetall, já participam de treinamentos e operações de suporte. Em um contrato de 260 milhões de euros, a companhia construiu, em apenas 14 dias, um acampamento completo para 500 soldados, com alojamentos, cinco postos de combustível, refeitório e vigilância por drones — uma “cidade construída do nada em 14 dias e desmontada em sete”, segundo fonte ouvida pelo jornal norte-americano.

A operação revelou limitações estruturais: faltou espaço para todos os veículos e o terreno irregular exigiu transporte constante de tropas. Ainda assim, as Forças Armadas Alemãs consideram o avanço significativo. “Considerando que começamos do zero no início de 2023, estamos muito satisfeitos com o ponto onde estamos hoje. É um projeto muito sofisticado”, afirmou um dos autores do OPLAN DEU ao WSJ.