Com o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026, os holofotes globais se voltaram para a América do Norte. No entanto, além dos gols e das festas das torcidas, outro assunto domina as manchetes internacionais e as redes sociais: o rigor extremo do controle de fronteiras dos Estados Unidos. Relatos de vistos negados de última hora para delegações de mídia, torcedores retidos em aeroportos e até o veto à entrada do árbitro somali Omar Artan geraram uma onda de frustração e acusações de “falta de espírito esportivo”.
Para o público geral e turistas de primeira viagem, o tratamento rígido pode parecer uma afronta ao clima de união defendido pela FIFA. Para quem estuda as políticas de segurança americanas, contudo, o cenário é absolutamente previsível. O rigor que o mundo testemunha hoje não foi desenhado para a Copa; ele é o funcionamento padrão de uma engrenagem burocrática e de segurança nacional moldada inteiramente a partir do dia 11 de setembro de 2001.
Antes de 2001, o processo de entrada de estrangeiros nos Estados Unidos era consideravelmente mais brando. O trágico ataque terrorista às Torres Gêmeas e ao Pentágono alterou de forma permanente e irreversível a doutrina de segurança do país. A maior transformação foi a criação do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que unificou agências sob um único mantra: prevenir ameaças em solo americano a qualquer custo.
A partir daquele momento, a filosofia da imigração americana passou a se basear no princípio da “presunção de risco”. Sob a lei de imigração dos EUA, todo solicitante de visto de não imigrante é legalmente considerado um potencial imigrante ilegal ou um possível risco à segurança até que prove o contrário.
A agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) opera com um nível de autonomia que frequentemente surpreende os estrangeiros. Portar um ingresso da Copa do Mundo ou mesmo um visto válido aprovado por um consulado não garante a entrada de ninguém. O visto é apenas uma permissão para se apresentar a um porto de entrada. A decisão final de admissão cabe exclusivamente ao oficial de imigração na cabine do aeroporto.
Recentemente, o secretário de Segurança Interna dos EUA, Markwayne Mullin, defendeu publicamente o rigor nos aeroportos durante o torneio:
“Nossa principal prioridade continua sendo a segurança nacional. Não vamos permitir a entrada de indivíduos que tenham registros criminais ou ligações percebidas como de risco. Não importa qual seja o evento.”
O que muitos torcedores e delegações estão chamando de “barreiras excessivas” reflete o protocolo padrão que já monitora milhões de viajantes anualmente por meio de tecnologias e regras estritas:
• Vetting biométrico e de dados: sistemas de inteligência cruzam dados de passaportes, históricos de viagens e, cada vez mais, informações de redes sociais. Se houver qualquer inconsistência ou homônimo em listas de vigilância, o viajante é direcionado para a temida “inspeção secundária”.
• Investigação de dispositivos eletrônicos: oficiais da CBP têm autoridade legal para revistar telefones celulares e computadores caso suspeitem de atividades inconsistentes com o propósito da viagem. Foi o que ocorreu recentemente com o fotógrafo da equipe do Iraque, Talal Salah, que teve a entrada recusada após uma longa vistoria em seus aparelhos.
• A rígida validade do ESTA: para cidadãos de países que participam do Programa de Isenção de Visto (como nações europeias), o sistema eletrônico ESTA pode ser revogado automaticamente dias antes da viagem caso o algoritmo identifique uma mudança de perfil ou histórico de viagens anteriores a países considerados de risco geopolítico. Torcedores escoceses e marroquinos sentiram esse impacto diretamente nas últimas semanas, ao verem suas autorizações canceladas às vésperas do embarque.
Existe uma clara dissonância entre o discurso da FIFA — que vende a Copa como o ápice da integração global — e a realidade das fronteiras soberanas. Embora o governo dos EUA tenha facilitado trâmites por meio do sistema PASS (Priority Appointment Scheduling System) para portadores de ingressos e suspendido temporariamente exigências financeiras de fiança para cidadãos de determinados países competidores, a triagem de segurança individual permaneceu intocada.
Historicamente, os Estados Unidos nunca abriram exceções de segurança para megaeventos. Foi assim nos Jogos Olímpicos de Salt Lake City (2002) e Atlanta (1996), e o modelo se repete agora. Na visão de Washington, o tamanho ou a importância de um evento esportivo não justifica a flexibilização de regras construídas para blindar o território nacional contra ameaças externas.
Para os milhões de torcedores que conseguem entrar sem problemas, a Copa do Mundo nos EUA promete ser uma experiência inesquecível. No entanto, os episódios de rigidez na fronteira servem como um lembrete contundente: no mundo pós-11 de setembro, as regras de segurança nacional norte-americanas são absolutas, e o futebol, por mais poderoso que seja, não tem o poder de driblar a lei federal.




