A Austrália abriga hoje cerca de 60 espécies de cangurus, wallabies e outros marsupiais saltadores. No entanto, no final do Pleistoceno, entre 65 mil e 40 mil anos atrás, 27 espécies de cangurus foram extintas. Até então, acreditava-se que mudanças climáticas, que transformaram florestas úmidas em ambientes mais secos e abertos, eram a principal causa desse desaparecimento.
Um estudo recente, publicado na revista Science, desafia essa ideia. Pesquisadores da Universidade Flinders e do Museu e Galeria de Arte do Território do Norte, ambos na Austrália, analisaram mais de 2.650 escaneamentos de dentes de 12 espécies de cangurus fósseis e 16 atuais. Utilizando a técnica de Análise da Textura de Microdesgaste Dentário (DMTA), descobriram que as espécies extintas tinham dietas mais diversificadas do que se pensava, consumindo tanto folhas quanto gramíneas.
“Nosso estudo desafia a ideia de que os cangurus de focinho curto eram herbívoros especializados em folhagem”, afirma Sam Arman, técnico em ciências da Terra e autor do estudo. “Isso pode parecer algo menor, mas tem enormes implicações para a extinção da megafauna.”
A análise sugere que a extinção dessas espécies não foi causada por mudanças na disponibilidade de alimento devido ao clima, mas possivelmente pela ação humana, já que o período de desaparecimento coincide com a chegada do Homo sapiens ao continente australiano. “Como sabemos, a janela de extinção inclui a chegada dos humanos na Austrália, que certamente influenciaram o desaparecimento”, reforça Arman.
O continente australiano teve uma perda de 90% de sua biodiversidade há 40 mil anos, sendo mais da metade espécies de cangurus ou grupos relacionados. Entre as espécies que se extinguiram no final do Pleistoceno estão o Protemnodon mamkurra, um canguru pré-histórico que andava, e não saltava, e podia pesar até 170 kg, e duas espécies do canguru de focinho curto Sthenurus (S. andersoni e S. maddocki), com comprimento de até três metros. Enquanto o primeiro era um especialista em gramíneas (pastador), os dois últimos se alimentavam quase exclusivamente de folhas suculentas (‘browsers’).
Embora as mudanças climáticas possam ter desempenhado um papel na extinção dos cangurus, o estudo indica que não foram a única causa. A chegada dos humanos e suas atividades, como a caça, podem ter sido fatores determinantes no desaparecimento dessas espécies.