As Forças Armadas dos Estados Unidos devem retirar suas últimas tropas do Iraque até quarta-feira (30), encerrando uma presença militar de mais de duas décadas no país. A saída é celebrada pelo Irã e por grupos aliados como uma vitória, enquanto especialistas iraquianos alertam para o possível aumento da influência de Teerã e para riscos relacionados ao Estado Islâmico.
A retirada foi acordada em 2024, durante o governo do democrata Joe Biden, e executada pela administração de Donald Trump, mesmo em meio ao atual conflito entre Washington e Teerã.
Segundo o analista de segurança iraquiano Jasim al-Bahadli, especializado em grupos armados xiitas alinhados ao Irã, a saída da coalizão elimina uma presença militar que, durante anos, funcionou como contrapeso à influência iraniana. Para ele, as milícias apoiadas por Teerã devem apresentar a retirada como uma vitória e buscar ampliar sua influência nas decisões políticas e de segurança do Iraque.
Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica iraquiana, classificou a retirada como “uma vitória histórica para os grupos da resistência islâmica iraquiana e para os iraquianos honrados, e uma derrota esmagadora para o projeto americano”. Segundo ele, “Em 30 de setembro, celebraremos o encerramento de uma página sombria da história do Iraque e o fracasso da ocupação em impor sua vontade ao nosso país”.
Apesar do amplo apoio à soberania iraquiana, autoridades e lideranças locais manifestam preocupação com um eventual vazio de segurança. Abdulrahman al-Zobaie, líder tribal sunita de Fallujah, afirmou que o Iraque ainda não estaria plenamente preparado para assumir sozinho a responsabilidade pela segurança.
Os EUA invadiram o Iraque em 2003 para derrubar o ditador Saddam Hussein e permaneceram no país até 2011. As tropas retornaram em 2014 para apoiar as forças iraquianas na guerra contra o Estado Islâmico, derrotado territorialmente entre 2014 e 2017.
Desde então, o Iraque manteve relações estreitas tanto com Washington quanto com Teerã. Em 2020, os EUA mataram o comandante iraniano Qassim Suleimani em um ataque no Aeroporto de Bagdá. Grupos aliados do Irã responderam com ataques contra bases americanas.
O regime do Irã afirma que a retirada representa uma vitória de seu “eixo de resistência”. Amir Hayat Moqaddam, vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, declarou que “a segurança duradoura prevalecerá no Iraque” após a saída das tropas americanas.
Autoridades iraquianas também alertam para o risco de fortalecimento do Estado Islâmico. Embora tenha perdido o território que controlava, o grupo mantém células clandestinas no país. O comandante curdo Sirwan Barzani afirmou que a ausência de inteligência, apoio logístico e drones americanos pode favorecer a reorganização dos militantes.
As forças de segurança iraquianas disseram ainda ter identificado uma suposta célula que preparava atentados suicidas para coincidir com a retirada. O coronel Khalid al-Bayati, alto funcionário da área de segurança na estratégica cidade petrolífera de Kirkuk, afirmou que o Estado Islâmico busca demonstrar que “o grupo continua poderoso e capaz de lançar ataques sangrentos”.




