Ação na Venezuela: EUA neutralizam defesas aéreas chinesas e russas

Desde 2009, a Venezuela comprou sistemas russos e radares chineses.


“Nossa pátria é inexpugnável [inconquistável]; ninguém poderá tocar nem em um centímetro da pátria, que é sagrada.” Com essas palavras, pronunciadas em 2013, o então ditador Nicolás Maduro assegurava que seu governo havia instalado na Venezuela “o sistema antiaéreo mais poderoso do mundo”, capaz de impedir que “jamais algum avião estrangeiro pudesse entrar e pisar no sagrado céu da pátria”.

Quase 13 anos depois, no entanto, essa retórica foi desmentida de forma contundente. No dia 3 de janeiro, mais de 150 aviões e helicópteros das Forças Armadas dos Estados Unidos atravessaram o espaço aéreo venezuelano e chegaram até Caracas em uma operação militar inédita, que resultou na captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Imagens e gravações divulgadas nas redes sociais indicaram resistência mínima por parte das dispendiosas defesas antiaéreas venezuelanas, reforçando a percepção de colapso operacional diante de um adversário de nível tecnológico muito superior. A hipótese de colaboração interna foi levantada por analistas, mas rejeitada oficialmente. “Aqui ninguém se entregou; aqui houve combate, e houve combate por esta pátria, e houve combate pelos libertadores”, declarou a presidente interina Delcy Rodríguez em cerimônia realizada cinco dias após a operação.

Diante dos acontecimentos, a emissora BBC News Mundo consultou especialistas militares para explicar o fracasso dos sistemas defensivos venezuelanos, comprados da China e da Rússia. “A ineficácia da defesa aérea venezuelana é um mistério, já que, ao menos em teoria, ela era formidável”, afirmou Mark Cancian, coronel reformado da Infantaria de Marinha dos Estados Unidos e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

Desde 2009, a Venezuela adquiriu sistemas russos, como o S-300 e o Buk-M2, além de mísseis de curto alcance (Pechora e Igla-S), radares chineses e drones iranianos. Ainda assim, especialistas avaliam que esse arsenal mostrou-se incapaz de enfrentar forças altamente sofisticadas dos Estados Unidos. “Para alguns adversários, esse sistema é letal; mas, para um oponente altamente sofisticado, como os Estados Unidos, não passa de sucata”, afirmou Thomas Withington, do Royal United Services Institute (RUSI, na sigla em inglês).

Segundo os analistas, Washington utilizou ampla superioridade em guerra eletrônica, inteligência, ataques cibernéticos e interferência nas comunicações, neutralizando radares e tornando suas aeronaves praticamente invisíveis. “A tecnologia de guerra eletrônica dos Estados Unidos é muito avançada”, reconheceu um major reformado do Exército venezuelano após a operação norte-americana.

Além disso, falhas graves de preparação e posicionamento teriam facilitado a ação americana. “Muitos sistemas estavam posicionados a céu aberto, sem camuflagem, o que facilitou sua destruição”, explicou Cancian. O resultado foi uma operação rápida, precisa e decisiva, que evidenciou a ampla superioridade operacional, tecnológica e estratégica das Forças Armadas dos Estados Unidos.