Ucrânia vive pesadelo em meio a ataques russos no pior inverno da guerra

A Ucrânia enfrenta o inverno mais severo desde o início da invasão russa.


Com o foco global desviado para crises sucessivas na Venezuela e no Irã, a Guerra da Ucrânia prossegue com intensidade renovada e um drama humanitário crescente, marcado por ataques russos ao sistema energético do país. A Ucrânia enfrenta o inverno mais severo desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.

Nesta terça-feira (13), as forças de Moscou realizaram o ataque mais concentrado do ano contra a região de Kiev, que ainda se recuperava de um grande bombardeio ocorrido no fim de semana anterior. Segundo autoridades ucranianas, foram lançados 293 drones, dos quais 240 teriam sido abatidos, além de 18 mísseis, dos quais sete foram interceptados. A capital e sua região metropolitana amanheceram sem energia elétrica em cerca de metade do território, afetando sistemas de aquecimento e de abastecimento de água. As temperaturas chegaram a -12°C, com registro de fortes nevascas.

De acordo com o governo ucraniano, o número de imóveis sem energia permanece na casa dos milhares — eram 6.000 ao longo do fim de semana, mas os reparos reduziram o total para 800 na segunda-feira (12). “A Rússia precisa entender que o frio não vai ganhar a guerra”, afirmou, no X (antigo Twitter), o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

O impacto, contudo, tem sido elevado. “Comparada a todos os invernos anteriores, esta é a pior situação”, disse Olena Pavlenko, chefe da consultoria energética DiXi Group, ao jornal Kyiv Independent.

Avaliação semelhante foi feita por Mikhailo Antonenko, jornalista de Kharkiv que deixou a cidade da linha de frente em novembro. “Estou agora em trânsito de volta”, relatou, por mensagem. “Não dá mais; passei quatro dias sem energia”, afirmou.

Moradores da capital ucraniana recorrem a improvisos ou a um dos cerca de 1.200 abrigos aquecidos mantidos pela prefeitura. Kiev também instalou 68 pontos com geradores distribuídos pela cidade, onde a população pode se aquecer e carregar aparelhos eletrônicos.

Após o ataque russo da madrugada de quinta-feira (8) para sexta-feira (9), quando metade da cidade ficou sem luz, a prefeitura recomendou que moradores com condições deixassem temporariamente Kiev. A administração municipal nega tratar-se de uma ordem de evacuação, destacando a inviabilidade de realocar seus cerca de 3 milhões de habitantes.

Os sinais da crise se espalham pelo país. Em Krivii Rih, cidade natal de Zelensky, um relatório da ONU, discutido no Conselho de Segurança, aponta falta crônica de energia. Assim como em Kiev, moradores derretem neve para obter água potável.

Além da eletricidade, ataques russos têm atingido sistemas de estocagem e de distribuição de gás, essenciais para o aquecimento. Em uma resposta simbólica, Moscou lançou um míssil Oreshnik — projetado para cenários de guerra nuclear — contra uma instalação de reparo de aeronaves próxima à fronteira com a Polônia, membro da OTAN.

Em sua primeira aparição pública do ano, na segunda-feira, o presidente russo Vladimir Putin discutiu o programa de rearmamento do país com o vice-primeiro-ministro Denis Manturov. Na retórica do Kremlin, a guerra segue a pleno vapor.