Pelo menos sete pessoas morreram durante uma onda de manifestações no Irã, segundo números divulgados pelas autoridades locais na quinta-feira (1º). Os protestos ocorrem em meio a uma grave crise econômica, marcada por inflação elevada, desvalorização da moeda local e pelos efeitos de sanções internacionais. Também pesa no cenário o conflito registrado em junho do ano passado contra Israel.
As mobilizações se intensificaram na última segunda-feira (29), quando centenas de pessoas foram às ruas para protestar contra a deterioração das condições econômicas e o aumento do custo de vida no país. Comerciantes aderiram aos atos e fecharam lojas em Teerã, enquanto estudantes passaram a apoiar e ampliar os protestos, que se espalharam por diferentes regiões do país.
Diante da escalada das manifestações, o governo do presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou ter aberto um canal de diálogo com representantes da sociedade para discutir as demandas da população. “Reconhecemos oficialmente os protestos. Ouvimos essas vozes e sabemos que isso tem origem na pressão natural provocada pelas dificuldades no sustento da população”, afirmou a porta-voz do governo na terça-feira (30).
O gesto, no entanto, não foi suficiente para conter a tensão. Nos últimos dias, foram registrados confrontos entre manifestantes e forças de segurança. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram objetos em chamas nas ruas e sons de disparos. Na quinta-feira, segundo a mídia local, três manifestantes morreram e 17 ficaram feridos durante um ataque a uma delegacia de polícia na província de Lorestan, no oeste do país.
De acordo com a Associated Press (AP), esta é a maior onda de manifestações no Irã desde 2022, quando a jovem Mahsa Amini morreu após ser detida pela polícia por descumprir o rígido código de vestimenta do país.
A economia iraniana enfrenta dificuldades há anos, agravadas pela reimposição de sanções pelos Estados Unidos em 2018, quando o então presidente norte-americano Donald Trump retirou o país de um acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano. Ao retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump retomou a política de “pressão máxima” contra o Irã. Em setembro, sanções adicionais foram impostas pelas Nações Unidas (ONU), levando o governo iraniano a realizar reuniões para tentar evitar um colapso econômico no país. O cenário foi agravado ainda pelo conflito entre Irã e Israel, em junho de 2025, quando forças israelenses e dos Estados Unidos realizaram ataques contra alvos ligados ao programa nuclear iraniano.
Nesse contexto, a população passou a enfrentar inflação superior a 40% ao ano. O descontentamento também aumentou diante da desigualdade social e de denúncias de corrupção. Na segunda-feira, o presidente do Banco Central do Irã renunciou ao cargo. Segundo a mídia iraniana, políticas recentes de liberalização econômica pressionaram a moeda local, que perdeu cerca de metade de seu valor frente ao dólar apenas em 2025, atingindo mínima histórica neste mês.
As dificuldades econômicas se somam às tensões políticas internas. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é uma república teocrática liderada pelo aiatolá Ali Khamenei, no poder há mais de três décadas. O regime é alvo recorrente de críticas por violações de direitos humanos e restrições às liberdades sociais, especialmente entre os jovens, protagonistas de diversos protestos nos últimos anos, não só no Irã, mas em diversos países do mundo.




