Vitória de Kast no Chile evidencia a ascensão global da direita

José Antonio Kast foi eleito presidente do Chile em sua 3ª tentativa.


José Antonio Kast já previa o desfecho. “Nossas ideias já venceram — venceram nos Estados Unidos, venceram na Itália e venceram na Argentina”, afirmou em uma rádio chilena um dia após a posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em janeiro. “Nós também vamos vencer.”

No domingo (14), a projeção se confirmou. José Antonio Kast foi eleito presidente do Chile em sua terceira tentativa, com 58% dos votos, derrotando a candidata comunista de esquerda e deslocando o país de forma decisiva para a direita, em um contexto marcado pela busca por respostas mais duras ao avanço da violência e da imigração ilegal.

Pai de nove filhos, com formação ideológica ancorada no catolicismo conservador e no neoliberalismo econômico, Kast integra um movimento global de direita que tem ascendido ao poder ao priorizar políticas rígidas de lei e ordem e maior controle de fronteiras. Em seu discurso de vitória, declarou: “O Chile não pode se acostumar com o medo, e o Chile não pode se acostumar com o fogo. O Chile estará livre do crime novamente.”

Durante a campanha, Kast adotou o lema “Chilenos primeiro”, em referência ao slogan “América Primeiro” de Trump, e prometeu construir uma barreira física na fronteira norte do país, rota utilizada por um número expressivo de migrantes venezuelanos nos últimos anos. Neste ano, discursou na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), na Hungria, onde elogiou o primeiro-ministro do país, Viktor Orbán, e criticou o multiculturalismo e o “politicamente correto”. Também se reuniu, neste mês, com o ministro da Segurança de El Salvador, país governado por Nayib Bukele, conhecido por uma repressão severa às gangues, alvo de críticas por supostas violações de direitos humanos. Segundo Kast, algumas das práticas discutidas “poderiam eventualmente ser aplicadas também no Chile”.

Entre líderes internacionais, Kast mantém maior proximidade com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, conforme avaliou Rodolfo Carter, senador e porta-voz de sua campanha. A relação, construída em encontros recentes e conversas telefônicas, é vista por analistas como parte de uma estratégia para ampliar o apoio eleitoral e moderar a imagem do presidente eleito.

A exemplo de Meloni, Kast suavizou posições consideradas mais radicais em campanhas anteriores, evitando temas como aborto e a pílula do dia seguinte, e concentrando o discurso em segurança pública e combate à imigração ilegal. Ele prometeu medidas rigorosas, incluindo um prazo para que migrantes se autodeportem ou sejam deportados. Segundo Carter, no enfrentamento ao crime organizado, “haverá vítimas”. Kast também anunciou a intenção de cortar gastos federais, sem detalhar quais áreas seriam afetadas.