A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) enfrenta um novo debate interno após a divulgação de um memorando no qual o principal responsável pela área de vacinas da agência defende critérios mais rigorosos para revisão e aprovação de imunizantes. O documento, enviado na sexta-feira (28), foi assinado pelo Dr. Vinay Prasad, que reassumiu em setembro o cargo de diretor médico e científico da FDA e é conhecido por críticas públicas às campanhas de vacinação contra a Covid-19.
No memorando, Prasad afirma que uma reavaliação de registros teria associado a morte de 10 crianças à vacina contra a Covid-19, classificando os casos como de atribuição provável ou possível. O texto não apresenta detalhes sobre a metodologia nem informações clínicas que embasariam a conclusão, tampouco foi submetido a publicação científica. O conteúdo foi inicialmente relatado por um correspondente do telejornal PBS Newshour e depois obtido e publicado pelo jornal Washington Post.
A repercussão ocorre em meio a mudanças significativas na política de imunização do governo de Donald Trump. O secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., restringiu o acesso às vacinas contra a Covid-19 a pessoas com 65 anos ou mais e a indivíduos com doenças preexistentes. Kennedy, crítico histórico de imunizantes e conhecido por associar vacinas ao autismo, tem buscado remodelar diretrizes federais desde que assumiu o cargo na administração Trump.
Durante a pandemia, tanto no governo Trump quanto no governo Biden, autoridades de saúde norte-americanas defenderam enfaticamente a vacinação como medida essencial para salvar vidas. As vacinas foram lançadas em 2020, e dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) registram 1.071 mortes por Covid-19 entre pessoas de 5 a 18 anos entre janeiro de 2020 e junho de 2023. Embora especialistas reconheçam a eficácia dos imunizantes, o memorando de Prasad sustenta que não seria possível determinar se os benefícios superam os riscos. “Comparar o número de crianças que morreram de COVID com essas mortes (relacionadas à vacina) seria uma comparação falha”, escreveu.
Em entrevista à emissora Fox News, o comissário da FDA, Marty Makary, afirmou no fim de semana que a agência divulgará informações sobre os casos mencionados, alegando que o governo Biden não as apresentou. Ao comentar os reforços vacinais, declarou: “É uma afronta à ciência se simplesmente aprovarmos coisas sem apresentar dados.” Makary ressaltou, porém, a eficácia dos imunizantes para idosos: “A vacina contra a COVID foi incrível para pessoas em risco e para idosos, especialmente quando havia uma boa correspondência com o vírus em circulação.”
A comunidade científica reagiu com ceticismo. Dorit Reiss, professora de direito da UC Law San Francisco, criticou Prasad por propor mudanças com base em uma investigação não publicada. “O Dr. Prasad não está sugerindo um processo deliberativo para avaliar os próximos passos, como era prática comum da FDA”, escreveu no X, destacando ainda que sua especialidade não é vacinas. O Dr. Amesh Adalja, pesquisador do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, afirmou à emissora ABC News que o memorando “carece de quaisquer dados médicos reais” que justifiquem a conclusão apresentada. Segundo ele, seriam necessárias informações básicas, como idade dos pacientes, tipo de vacina administrada e condições prévias de saúde. Adalja alertou que declarações sem evidências sólidas “só servirão para aumentar o sentimento antivacina e politizar ainda mais uma questão que não deveria ser politizada”.




