A Embaixada da China no Brasil solicitou autorização para que o navio-hospital Ark Silk Road, da Marinha do Exército Popular de Libertação (EPL), atraque no Porto do Rio de Janeiro entre 6 e 13 de janeiro de 2026. O pedido foi encaminhado ao Ministério das Relações Exteriores por meio de nota verbal datada de 15 de setembro de 2025 e gerou mal-estar interno no Itamaraty e na Marinha. A embarcação participa desde setembro da Harmony Mission 2025, “missão humanitária internacional” lançada por Pequim. O documento diplomático, obtido pelo site Poder360, não explicita o objetivo da escala, limitando-se a informar que “não está prevista a realização de atividades de pesquisa em águas jurisdicionais brasileiras ou a utilização de equipamentos rádio transmissores”.
A Harmony Mission 2025 é a primeira iniciativa do tipo conduzida pela China fora de sua região, com duração de 220 dias e visitas programadas a 12 países. Segundo informações oficiais, o Ark Silk Road já passou por Nauru, Fiji e Tonga, e deve ir ainda ao México, Jamaica, Barbados, Brasil, Peru, Chile e Papua-Nova Guiné. O próximo destino confirmado é a Nicarágua, onde ficará ancorado no Porto de Corinto entre 1º e 30 de novembro. O país restabeleceu relações diplomáticas com a China em 2021, após romper com Taiwan. Entre os destinos, apenas Brasil e México não integram a Iniciativa Cinturão e Rota. O governo brasileiro evita a adesão formal, apesar da relevância econômica de Pequim como principal parceiro comercial do país.
O Ark Silk Road é um navio médico de grande porte, equipado com 14 departamentos clínicos e sete unidades auxiliares de diagnóstico, capaz de realizar mais de 60 tipos de cirurgias. Conta com helicóptero próprio para resgate e evacuação e transporta 389 tripulantes, majoritariamente militares da Marinha do Teatro Sul do EPL, com reforços de outras unidades e da Universidade Médica Naval da China. No Pacífico Sul, a missão atendeu mais de 9.200 pessoas, realizou 1.100 cirurgias e 6.000 exames. A diplomacia chinesa descreve a embarcação como um “navio da esperança e enviado da paz”.
A Marinha brasileira afirma que sua análise é restrita a aspectos técnicos e logísticos, como dimensões da embarcação, riscos à navegação, capacidade portuária e demanda de energia e água. Questões políticas cabem ao Itamaraty. Ainda assim, o pedido gerou desconforto. “Há um certo mal-estar porque o pedido não explicita que se trata da Harmony Mission. Isso gerou dúvidas sobre o objetivo real da visita”, disse uma fonte sob reserva ao Poder360.
Para o cientista político Maurício Santoro, do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, o episódio é “constrangedor”. Segundo ele, “o Brasil não precisa desse tipo de cooperação. O uso de navios hospitalares em visitas de boa vontade é adequado a países muito pobres ou que sofreram desastres naturais, o que não é o caso brasileiro”. Santoro menciona que o Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico “é perfeitamente adequado para esse tipo de resposta humanitária”. Recusar o pedido, no entanto, poderia ser interpretado como gesto de desconfiança. “O Brasil não quer simplesmente dizer não. A China é um parceiro econômico relevante e sensível em termos estratégicos”, avaliou.
O movimento ocorre em contexto geopolítico delicado. Ao enviar o Ark Silk Road ao Atlântico Sul e ao Caribe, a China indica intenção de atuar fora de seu entorno tradicional, projetando presença próxima à esfera de influência dos Estados Unidos. Washington reforça sua atuação naval no Caribe sob a política antidrogas do presidente dos EUA, Donald Trump, incluindo operações próximas à Venezuela e exercícios com Trinidad e Tobago. “Quem manda um navio hospitalar pode mandar um navio de guerra”, afirmou Santoro. A movimentação ocorre também após a inauguração do megaporto de Chancay, no Peru, liderado pela estatal chinesa Cosco Shipping.
A visita chinesa deverá coincidir com a passagem do navio de pesquisa oceanográfica norte-americano Ronald H. Brown pelo Porto de Suape, no Nordeste, entre 14 e 21 de janeiro de 2026.




