A população em situação de rua inscrita no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais) atingiu cerca de 350 mil pessoas em 2024, representando um aumento de 142% em relação a 2019, quando havia 144,7 mil registros, segundo dados compilados por reportagem do jornal O Globo. O avanço ocorre, segundo o governo federal, em meio à “melhora dos indicadores sociais” no país, como a “redução da pobreza extrema”, a “queda da insegurança alimentar”, a ampliação do Bolsa Família — que hoje beneficia 20 milhões de famílias — e a “recuperação dos índices de emprego e renda”.
Dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que o número de brasileiros em insegurança alimentar grave recuou para 6,4 milhões, o menor patamar já registrado. A ONU (Organização das Nações Unidas) também retirou o Brasil do Mapa da Fome. Apesar dos avanços, o aumento da população em situação de rua evidencia um descompasso nas políticas públicas voltadas a esse grupo.
De acordo com o sociólogo Marco Antônio Natalino, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), “o número de abrigos, centros de apoio e serviços especializados não acompanhou o crescimento da demanda”. O perfil dessa população mostra que 84% são homens, 70% têm entre 30 e 59 anos e 69% se declaram negros. As grandes cidades concentram 70% dessa população, mas o fenômeno tem se expandido para o interior: em 2015 havia registros em 1.215 municípios; em 2024 o número dobrou para 2.683.
Para enfrentar o problema, o governo federal lançou o programa Ruas Visíveis, coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. A iniciativa busca integrar políticas de habitação, saúde, assistência social, trabalho e cultura. Contudo, o orçamento anual de R$ 1 bilhão é considerado insuficiente por especialistas.
Segundo Maria Luiza Gama, diretora do ministério, a pandemia de Covid-19 agravou o quadro, gerando desemprego, despejos e rupturas de vínculos, especialmente entre pessoas LGBTQIA+. Ela defende uma abordagem integrada, com moradia como eixo central de cuidado. “A política ideal é preventiva. É preciso oferecer caminhos de saída que envolvam saúde mental, acesso a renda e vínculos familiares”, afirmou.
O programa prevê ações-piloto de moradia cidadã, que usam o domicílio como base para a reintegração social. No entanto, Natalino alerta que “Centros POP e Creas fazem um trabalho relevante, mas são poucos e muitas vezes sobrecarregados. Falta escala e efetividade”.
Há também divergência sobre os números reais. Enquanto o CadÚnico registra 22,4 mil pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro, o censo municipal de 2022 indicava 7,8 mil. Em São Paulo, o CadÚnico aponta 95 mil, contra 31,8 mil no levantamento da prefeitura de 2021.
Joana Darc Bazílio da Cruz, coordenadora nacional do Movimento de População de Rua, afirma que “o que falta é vontade política e moradia digna com acesso a saúde, educação, trabalho e cultura. O que existe hoje é uma segregação social irreparável”.




