ESA simula possível apagão global causado por supertempestade solar

Segundo a agência, a principal questão não é “se” acontecerá, mas “quando”.


Imagine um apagão global no espaço e na Terra: satélites fora de controle, sistemas de GPS inoperantes, falhas generalizadas em dispositivos eletrônicos e redes elétricas em colapso.

Esse foi o cenário extremo simulado por engenheiros da Agência Espacial Europeia (ESA) na Alemanha, em um exercício inédito iniciado em meados de setembro e destinado a avaliar a capacidade humana de reagir a uma tempestade solar de grandes proporções. A agência europeia divulgou informações sobre o exercício na última quarta-feira (15).

A experiência, realizada no Centro Europeu de Operações Espaciais (ESOC), em Darmstadt, reuniu dezenas de engenheiros e especialistas em clima espacial para enfrentar, de forma simulada, o pior pesadelo possível para a infraestrutura tecnológica moderna: uma supertempestade solar semelhante à que atingiu a Terra em 1859, conhecida como Evento Carrington, a mais intensa já registrada.

Naquela época, o planeta ainda vivia a era do telégrafo. Mesmo assim, a tempestade provocou incêndios em linhas de transmissão e iluminou o céu noturno com auroras vermelhas visíveis até em regiões tropicais. Registros históricos indicam que até Cuba observou o fenômeno.

Hoje, com a dependência global de satélites, internet e sistemas elétricos, um evento semelhante teria impactos catastróficos. É justamente esse tipo de risco que a ESA busca mitigar. O exercício fez parte da preparação para o lançamento do Sentinel-1D, novo satélite europeu de observação da Terra, previsto para 4 de novembro.

O teste começou com uma simulação padrão de lançamento e das primeiras operações do satélite, com comunicações estáveis e todos os sistemas operando normalmente. Poucos minutos depois, porém, os dados começaram a falhar e o sinal tornou-se instável, simulando os efeitos de uma erupção solar intensa.

Uma erupção solar é uma explosão de energia na superfície do Sol causada pelo rompimento de campos magnéticos. Em questão de minutos, ela aquece o plasma a milhões de graus e libera radiação que pode interferir em satélites, GPS e comunicações terrestres.

Segundo a ESA, essa fase da simulação teve o objetivo de avaliar a resposta da equipe a um cenário extremo no qual uma erupção solar de intensidade comparável às maiores já observadas atingiria virtualmente o satélite, gerando falhas nos sistemas de comunicação, radares e navegação, reproduzindo as condições reais de uma tempestade solar.

Com o avanço do exercício, o cenário se tornou mais complexo. Os sistemas começaram a responder de forma errática, simulando os efeitos de uma tempestade de classe X45 — a categoria mais poderosa da escala usada para medir a intensidade dessas explosões. Em um evento real, uma erupção desse porte poderia causar apagões generalizados nas comunicações e nas redes elétricas.

De acordo com os cientistas, a radiação de um fenômeno dessa magnitude atingiria a Terra em cerca de oito minutos, praticamente sem tempo para reação. Essa fase reproduziu os efeitos de uma ejeção de massa coronal, uma imensa nuvem de partículas carregadas lançada pelo Sol. Quando uma dessas nuvens atinge o campo magnético terrestre, pode provocar tempestades geomagnéticas, interferindo em satélites, redes de energia e gerando auroras em latitudes incomuns, como já ocorreu no século XIX.

“Caso uma tempestade dessas aconteça, o arrasto dos satélites pode aumentar 400%, com picos locais na densidade atmosférica. Isso eleva o risco de colisões e reduz a vida útil das missões por causa do maior consumo de combustível”, afirmou Jorge Amaya, coordenador de modelagem de clima espacial da ESA.

Durante o exercício, as equipes também enfrentaram falhas simuladas em instrumentos de orientação, perda de sinal e erros em sensores de navegação, testando a capacidade de resposta diante de múltiplos problemas simultâneos. “Se um problema assim acontecer de verdade, não há boas soluções. O objetivo seria apenas manter o satélite seguro e limitar os danos tanto quanto possível”, explicou Thomas Ormston, gerente adjunto de operações do Sentinel-1D.

O treinamento contou ainda com o Escritório de Clima Espacial da ESA, criado em 2022, e com o Escritório de Detritos Espaciais, responsável por monitorar riscos de colisão em órbita. Ambos coordenaram as respostas e avaliaram possíveis impactos em outras missões.

“A principal conclusão é que não é uma questão de ‘se’ isso acontecerá, mas de ‘quando’”, destacou Gustavo Baldo Carvalho, oficial líder de simulação do Sentinel-1D. “A escala e a variedade dos impactos nos levaram ao limite, mas a equipe dominou o desafio.”

A simulação integra uma série de exercícios internacionais voltados à preparação de governos e agências espaciais diante do aumento da atividade solar. O Sol passa por ciclos de cerca de 11 anos, e o atual, o Ciclo 25, está em seu auge.

Segundo a NASA, a agência espacial dos EUA, os últimos meses registraram um número de erupções acima do previsto. Entre 2024 e 2025, mais de dez tempestades solares classificadas como fortes atingiram a Terra, o maior número desde 2003. Elas geraram auroras em locais incomuns, como França, Alemanha e o norte dos Estados Unidos, além de falhas temporárias em sinais de GPS e comunicações de rádio, que chegaram a afetar rotas aéreas e marítimas.

Para mitigar riscos, países vêm ampliando o monitoramento e a cooperação internacional. A ESA mantém o programa “Space Weather Readiness”, voltado a simulações como a realizada na Alemanha. Já a NASA lidera o plano Solar Storm 2030, que reúne cientistas e o setor elétrico dos EUA para proteger satélites e redes de energia.

Agências espaciais da Europa, dos Estados Unidos, do Japão e do Canadá também realizam treinamentos conjuntos de resposta rápida, utilizando dados de satélites como o Solar Orbiter e o SOHO, que observam o Sol em tempo real. Esses testes ajudam a definir protocolos de alerta e aprimorar a comunicação entre centros de previsão.

Para os especialistas, a meta é clara: garantir que, quando a próxima grande tempestade solar ocorrer, o mundo esteja preparado.