Brasil vê disparar saída de milionários, e os EUA lideram como refúgio

Em 2025, até agosto, 1.446 milionários deixaram o Brasil, alta de 2,5% ante 2024. A maioria foi para os EUA.


Em meio ao avanço da reforma do Imposto de Renda na Câmara dos Deputados — que prevê o aumento da tributação sobre os mais ricos para compensar a isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais — voltou ao debate público a polêmica sobre uma possível fuga de milionários do país. O projeto foi aprovado por unanimidade, com 493 votos favoráveis, em 1º de outubro deste ano.

A discussão foi reacendida por uma projeção divulgada pela consultoria Henley & Partners, especializada em auxiliar pessoas de alta renda a obter vistos por investimento, conhecidos como golden visas. Segundo relatório publicado em junho, cerca de 1,2 mil milionários devem deixar o Brasil em 2025, um aumento de 50% em relação a 2024. A estimativa colocaria o país como líder latino-americano no chamado “êxodo de milionários”, com destino principal aos Estados Unidos, Portugal e Reino Unido.

Entretanto, a metodologia da Henley & Partners é questionada por especialistas. A emissora BBC News Brasil solicitou à Receita Federal, por meio da Lei de Acesso à Informação, dados sobre declarações de saída definitiva do país, documento obrigatório para quem reside no exterior por mais de 12 meses. O levantamento revelou que, embora o número absoluto de milionários deixando o Brasil tenha crescido desde o fim da pandemia, menos de 1% desse grupo sai do país a cada ano — e esse percentual vem caindo desde 2017.

Especialistas apontam que o número relativo de saídas é mais relevante que o total absoluto, já que o número de milionários brasileiros aumenta anualmente. “Olhando os dados em geral, é difícil dizer que tem fuga de milionários por conta da agenda tributária, ainda que exista uma saída, talvez motivada por outras questões”, avalia Manoel Pires, coordenador do Observatório de Política Fiscal do FGV Ibre.

A proposta de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil é uma promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e considerada uma medida popular. O projeto relatado pelo ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), prevê ainda descontos parciais para rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7,35 mil, além de tributação progressiva de até 10% para rendas anuais acima de R$ 600 mil, alcançando alíquota máxima para ganhos superiores a R$ 1,2 milhão. Também será aplicada uma taxação de 10% sobre lucros e dividendos mensais acima de R$ 50 mil, inclusive enviados ao exterior.

A declaração de saída definitiva foi usada como base para mensurar a migração de milionários, pois regulariza a situação fiscal de quem muda de país e evita a dupla tributação. Embora nem todos que saem a apresentem, é comum que quem busca reduzir impostos o faça, justamente para evitar cobrança simultânea no Brasil e no novo país de residência.

Os dados da Receita indicam que o recorde histórico de saídas ocorreu em 2017, em meio à crise política e econômica pós-impeachment de Dilma Rousseff (PT) e ao auge da Operação Lava Jato. Segundo o pesquisador do Ipea, Pedro Humberto Carvalho Junior, a intensificação dos acordos de cooperação fiscal e a lei de regularização de ativos no exterior de 2016, que permitia declarar recursos lícitos pagando 20% de imposto, explicam o pico de saídas naquele período.

Após a queda durante a pandemia, o movimento voltou a crescer. Em 2025, até agosto, 1.446 milionários deixaram o Brasil, número próximo ao recorde de 2017 e 2,5% superior ao de 2024. Para Michel Soler, diretor da Henley & Partners na América Latina, “temos visto essa tendência na última década. Acreditamos que isso se deve ao ambiente político no Brasil e também a algumas mudanças econômicas”. Segundo ele, “as pessoas estão procurando outros lugares onde possam ter estilos de vida diferentes, mais oportunidades de negócios e, claro, mais segurança também no que diz respeito à vida pessoal”.

Bruno Cury, responsável pela operação da consultoria no Brasil, acrescenta que “as políticas econômicas têm elevado a tributação no Brasil, então esta também é uma forma para os brasileiros buscarem outras jurisdições para se realocar, uma espécie de ‘plano B’”.

Apesar disso, economistas afirmam que ainda não há evidências concretas de que o aumento de impostos seja o principal fator desse movimento. O cenário, segundo eles, é mais complexo e envolve fatores políticos, econômicos e de segurança pública.