Em uma descoberta de grande relevância científica e histórica, pesquisadores do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, a agência espacial dos EUA, identificaram, em abril de 2024, vestígios de uma antiga base militar norte-americana sob as geleiras da Groenlândia. Durante uma expedição conduzida com sofisticados radares de penetração no gelo, foram detectadas estruturas a metros de profundidade, pertencentes à Camp Century — uma das instalações mais isoladas do Exército dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, originalmente criada para testar o lançamento de mísseis nucleares naquela região inóspita.
A construção de Camp Century teve início em 1959, sob um rigoroso planejamento estratégico. Mais do que um simples abrigo militar, tratava-se de uma verdadeira cidade subterrânea, composta por um complexo sistema de túneis interligados que abrigavam dormitórios, hospital, capela, áreas de estudo e lazer. A base foi pioneira na utilização de energia nuclear, por meio do reator portátil PM-2A, e chegou a sustentar até 200 pessoas no auge de suas operações. Em 1967, foi desativada e, desde então, permaneceu oculta sob camadas de gelo e neve.

Os EUA e a Dinamarca assinaram o Acordo de Defesa da Groenlândia em 1951 “para negociar acordos sob os quais as forças armadas das partes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) poderiam utilizar instalações na Groenlândia para defender a Groenlândia e o restante da área do Tratado do Atlântico Norte”, de acordo com o Museu Nacional de Ciência e História Nuclear dos EUA. (A Groenlândia era, na época do acordo, um condado da Dinamarca.) Esse tratado permitiu que os EUA construíssem bases no território.
O redescobrimento ocorreu durante um voo de pesquisa de rotina no norte da Groenlândia, utilizando o Radar de Abertura Sintética em Veículo Aéreo Não Tripulado (UAVSAR) da NASA. O objetivo inicial da missão era estudar a interação entre as camadas de gelo e o leito rochoso, mas o radar revelou sinais nítidos das estruturas da antiga base, surpreendendo os cientistas envolvidos. Graças aos avanços tecnológicos recentes, tornou-se possível obter imagens de alta precisão, o que pode viabilizar futuras investigações e ampliar o entendimento sobre o impacto humano naquela região remota.
A redescoberta da Camp Century oferece uma oportunidade única não apenas para revisitar o passado militar, mas também para aprofundar estudos sobre as mudanças climáticas. As amostras de gelo coletadas no local podem fornecer dados valiosos sobre o comportamento das camadas polares ao longo das décadas e sobre a evolução da poluição atmosférica desde a construção da base.
No entanto, especialistas alertam para um risco ambiental significativo. Caso as geleiras continuem derretendo em ritmo acelerado, resíduos químicos e radioativos armazenados sob o gelo poderão emergir, representando uma ameaça à região e ao planeta. Pesquisas recentes indicam que o aumento das temperaturas poderá liberar contaminantes dormentes há décadas, o que exige um plano internacional de monitoramento e medidas de contenção imediatas para mitigar possíveis impactos ambientais.




