O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu início a uma cúpula de três dias em Washington DC com os líderes de cinco países africanos, em um evento que a Casa Branca descreve como uma oportunidade comercial “incrível”. Os convidados incluem os presidentes do Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — todos países com populações e economias de menor porte.
As reuniões devem se concentrar na política externa do governo republicano, centrada no princípio de “comércio, não ajuda”. Todos os cinco países atualmente enfrentam tarifas de 10% sobre produtos exportados para os EUA, e a expectativa é de que as lideranças tentem negociar a redução dessas taxas durante os encontros.
Na quarta-feira (9), durante um almoço televisionado na Casa Branca, os líderes africanos elogiaram Donald Trump e incentivaram a ampliação das parcerias econômicas com os Estados Unidos. Sentado diagonalmente em relação a Trump, o presidente da Mauritânia, Mohamed Ould Ghazouani, foi o primeiro a se pronunciar.
“No curto período em que você retornou ao cargo, nos últimos meses, você veio em socorro da paz”, afirmou Ghazouani. “Vocês correram para a África para resolver um problema antigo”, continuou, referindo-se ao acordo de paz facilitado pelos EUA entre a República Democrática do Congo e Ruanda.
Outros líderes africanos ecoaram os elogios e, em vários casos, chegaram a declarar apoio à indicação de Trump ao Prêmio Nobel da Paz. O presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, elogiou suas habilidades no golfe e chegou a convidá-lo para construir um campo de golfe no país africano.
“Muito obrigado. Muito bom. Obrigado. Eu não sabia que seria tratado tão bem. Isso é ótimo”, respondeu Trump. “Poderíamos fazer isso o dia todo.”
Durante o evento, os chefes de Estado também destacaram os recursos naturais de seus países e convidaram diretamente investidores americanos. Faye falou sobre o projeto de construir uma “cidade tecnológica” em Dacar, com “vista para o mar”, e declarou: “Gostaria de convidar investidores americanos a participarem disso”.
O presidente do Gabão, Brice Clotaire Oligui Nguema, enfatizou que seu país possui “muitos recursos”, incluindo minerais de terras raras. “Você é bem-vindo para vir e investir, caso contrário, outros países podem vir no seu lugar”, alertou.
Segundo o ex-embaixador do Senegal em Washington, Babacar Diagne, os convites aos líderes africanos refletem uma “mudança de paradigma” na política externa dos EUA em relação ao continente. Desde que reassumiu a presidência em janeiro para um segundo mandato, Trump cortou significativamente a ajuda destinada à África, classificando-a como desperdício e incompatível com sua política de “América em Primeiro Lugar”.
Com os republicanos no comando, também surgem dúvidas sobre a renovação da Lei de Crescimento e Oportunidades para a África (Agoa), que concede acesso isento de tarifas a determinados produtos africanos. “Não é como antes com os democratas. Havia dois pontos fortes entre eles: redução da pobreza e questões de desenvolvimento, por meio da Agoa e outras iniciativas. Tudo isso acabou”, afirmou Diagne à BBC.
O acordo de paz assinado em Washington entre Ruanda e a República Democrática do Congo é visto como um exemplo da nova abordagem de “diplomacia comercial” dos EUA, com foco em acesso a minerais estratégicos. Nicaise Mouloumbi, chefe de uma ONG importante no Gabão — país rico em petróleo — destacou que a atenção dos EUA ao continente está relacionada à crescente concorrência de potências rivais como China e Rússia pelos recursos africanos.
“Todos esses países [convidados] têm minerais importantes: ouro, petróleo, manganês, gás, madeira e zircão — Senegal, Mauritânia e Gabão, em particular”, declarou Mouloumbi à BBC.
O Gabão, que abriga cerca de 25% das reservas globais conhecidas de manganês, fornece 22% desse mineral à China. O manganês é utilizado na produção de baterias e aço inoxidável.
Segundo Mouloumbi, além de minerais como manganês, urânio e petróleo, o interesse dos EUA no Gabão se deve à sua localização estratégica no Golfo da Guiné, com um litoral de aproximadamente 800 quilômetros. Ele afirmou que o país pode sediar uma base militar americana planejada para a região.
Diagne também mencionou o aumento da pirataria no Golfo da Guiné como preocupação dos EUA. “O terrorismo marítimo no Golfo da Guiné se tornou uma questão extremamente importante”, disse ele. A região é considerada um ponto crítico de pirataria, por onde passam numerosos petroleiros transportando petróleo e gás.
A questão migratória também estará no centro das discussões com a Mauritânia e o Senegal, segundo Ousmane Sene, chefe do Centro de Pesquisa da África Ocidental (WARC). “Não podemos esquecer que entre 2023 e 2025, nada menos que 20.000 jovens mauritanos partiram para os EUA via Nicarágua, junto com centenas de jovens senegaleses”, explicou. “Todos esses países também são pontos de partida para a emigração ilegal. Esse é um ponto extremamente importante na política de migração dele [Trump], e todos os dias as pessoas são mandadas de volta nas fronteiras.”
A Mauritânia é o único dos cinco países sem relações diplomáticas com Israel, aliado histórico dos EUA, desde que rompeu os laços em 2009 após uma ofensiva israelense em Gaza. Fontes ouvidas pela Semafor afirmam que o restabelecimento desses laços pode ser uma condição para acordos mais profundos com a Casa Branca.
Outro tema delicado são as taxas de permanência irregular de vistos. Gabão e Libéria possuem taxas mais altas do que países como Burundi, que recentemente foi alvo de restrições de viagem dos EUA justamente por esse motivo. A Libéria, país que mantém laços históricos estreitos com os Estados Unidos, também estaria sendo sondada para aceitar cidadãos deportados pelos EUA, inclusive com antecedentes criminais. Após uma guerra civil de 14 anos e a epidemia de ebola, o país enfrenta sérias dificuldades financeiras e foi duramente afetado pelos cortes na ajuda externa americana. Seu sistema de saúde, por exemplo, dependia dos EUA para cerca de 48% de seu orçamento.
A Guiné-Bissau, marcada por golpes e instabilidade política, busca a reabertura da embaixada americana em Bissau, fechada desde o motim militar de 1998. O presidente Umaro Sissoco Embaló comemorou o convite da Casa Branca e destacou o progresso institucional do país. “A Guiné-Bissau emergiu de um estado de desordem para se tornar um verdadeiro Estado. Os americanos não convidam qualquer Estado para o seu país — apenas um Estado bem estruturado”, afirmou antes de embarcar para Washington.
Os líderes africanos — Embaló, Nguema, Boakai (Libéria), Ghazouani e Faye — esperam apresentar propostas convincentes a Trump para fechar acordos vantajosos. Eles buscam evitar o que consideram um precedente negativo: o encontro entre o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e Trump no Salão Oval, em maio, que não trouxe resultados concretos. Como consequência, a África do Sul, maior economia do continente, viu suas exportações aos EUA serem tarifadas em 30% a partir do mês seguinte.




