A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou um novo e promissor medicamento para a prevenção do HIV. O fármaco, desenvolvido pela Gilead Sciences e batizado de Yeztugo (nome genérico: lenacapavir), demonstrou eficácia excepcional em ensaios clínicos, praticamente eliminando a transmissão do HIV entre os participantes que receberam a injeção semestral.
A notícia gerou grande expectativa entre especialistas e defensores da prevenção ao HIV. “Esta é a melhor oportunidade em 44 anos de prevenção ao HIV”, declarou Mitchell Warren, diretor executivo da AVAC, organização internacional sem fins lucrativos que atua no combate ao vírus. O presidente e CEO da Gilead, Daniel O’Day, afirmou que o Yeztugo pode representar um divisor de águas: “Temos uma oportunidade real de acabar com a epidemia de HIV de uma vez por todas”, disse ele em nota oficial.
O lenacapavir é o primeiro de uma nova classe de antirretrovirais que bloqueiam a capacidade do vírus de infectar as células imunológicas e se replicar. A administração do medicamento será feita exclusivamente por profissionais de saúde em clínicas autorizadas. Segundo os especialistas, uma de suas grandes vantagens é eliminar a necessidade de um regime diário de comprimidos, o que historicamente tem sido um desafio entre as populações com maior risco de contaminação.
A aprovação foi baseada em resultados considerados surpreendentes. Em um ensaio clínico realizado pela Gilead, homens gays, bissexuais e pessoas transgênero foram divididos aleatoriamente entre dois grupos: um recebeu injeções de Yeztugo a cada seis meses, e o outro tomou Truvada diariamente, a principal PrEP oral atualmente disponível nos EUA. O grupo que utilizou Yeztugo apresentou uma taxa de infecção 89% menor do que o grupo com Truvada e 96% menor do que a estimativa sem uso de qualquer PrEP.
Em outro estudo conduzido na África Subsaariana, com mulheres cisgênero, nenhum dos participantes que recebeu Yeztugo contraiu HIV durante o período da pesquisa.
Apesar do potencial revolucionário, o lançamento do Yeztugo ocorre em um cenário político e econômico que pode dificultar sua adoção em larga escala. O medicamento terá um custo elevado: US$ 14.109 por dose, o que equivale a cerca de R$ 77.500 (com o dólar cotado a R$ 5,49). Isso representa aproximadamente US$ 2.352 por mês.
Especialistas alertam que esse valor pode representar um obstáculo significativo, sobretudo para planos de saúde que tendem a priorizar alternativas genéricas mais baratas, como o Truvada, cuja versão genérica custa apenas US$ 30 por mês. Elizabeth Kaplan, diretora de acesso à saúde na Clínica de Direito e Políticas de Saúde da Faculdade de Direito de Harvard, observa que muitos planos podem se recusar a cobrir o novo medicamento ou impor coparticipações elevadas.
Outro fator de incerteza é uma decisão pendente da Suprema Corte dos EUA, que poderá afetar a obrigatoriedade de cobertura gratuita de medicamentos preventivos, como a PrEP, conforme previsto na Lei de Assistência Médica Acessível (ACA, conhecida como Obamacare). Além disso, especialistas da área temem que os cortes promovidos durante o governo Trump, que incluiu o cancelamento de bolsas de pesquisa e a redução de pessoal nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), tenham prejudicado a capacidade institucional dos Estados Unidos de ampliar as iniciativas de prevenção do HIV.
De acordo com a Gilead, as solicitações do novo medicamento poderão ser feitas por profissionais de saúde a partir de dois dias após a aprovação. No entanto, a empresa estima que o início efetivo das aplicações pode levar até dois meses, devido a trâmites logísticos e administrativos.
A chegada do Yeztugo se soma ao histórico recente da PrEP. O Truvada foi aprovado em 2012 como o primeiro medicamento oral preventivo do HIV, seguido pelo Descovy em 2019, ambos também da Gilead. Apesar de sua eficácia – quando tomados diariamente, reduzem o risco de infecção em até 99% – a adesão entre certos grupos ainda é desigual.
Dados do CDC mostram que homens gays e bissexuais negros e latinos continuam a apresentar taxas significativamente mais altas de infecção por HIV, mas têm menor acesso e adesão à PrEP em comparação com seus pares brancos.
Outro produto injetável, o Apretude, da ViiV Healthcare, aprovado em 2021 e administrado a cada dois meses, teve aceitação limitada, com apenas 21.000 usuários registrados até o momento. A necessidade de visitas frequentes a clínicas pode ter contribuído para o desinteresse inicial. Com o Yeztugo exigindo apenas duas aplicações por ano, espera-se que barreiras como essa sejam superadas.
Embora sua aprovação represente um marco científico e médico, a real eficácia do Yeztugo na redução da transmissão do HIV dependerá de sua acessibilidade, cobertura por planos de saúde e adoção equitativa entre todas as comunidades afetadas pelo vírus.




