Lula quer a China regulando a internet no Brasil. Isso é um risco à democracia

Lula visita a China, onde a liberdade de expressão morreu de causas naturais: censura e vigilância.


Há viagens que não deixam lembranças — deixam alertas. Luiz Inácio Lula da Silva, ao desembarcar em Pequim para conversar com o governo chinês e estreitar ainda mais as relações e os investimentos com o Brasil — e isso, aliás, foi motivo de inúmeros comentários na mídia — também incluiu na pauta a discussão sobre a regulamentação da internet. O governo chinês comprometeu-se a enviar alguém de sua confiança ao Brasil para tratar especificamente da regulamentação do TikTok.

Este colunista, que se mantém isento de qualquer lado ideológico/político, precisa, por vezes, pensar muito antes de se sentar para escrever — e, mais ainda, sobre como escrever — em um Brasil que, por momentos, parece ter saído diretamente de um episódio da série Black Mirror.

É razoável pedir conselhos à China sobre liberdade digital? Não seria como buscar dicas de jardinagem com quem cimentou o quintal?

Todo mundo sabe — sim, todo mundo — que a China vive sob uma ditadura, onde os meios de comunicação são rigidamente controlados pelo Estado e a população tem sua liberdade ceifada em praticamente todos os aspectos. A internet chinesa, essa mesma que nos inspira agora a discutir regulamentação, é um jardim murado, cercado por algoritmos de vigilância, censura em tempo real e silenciamento sistemático de dissidentes.

Escrevendo este parágrafo, não há como não recordar o livro 1984, de George Orwell. Pequim é campeã mundial em controle do discurso. Seus cidadãos vivem sob o olhar permanente do Estado. Publicações contra o governo são deletadas em segundos — sim, caro leitor, segundos. Jornalistas são perseguidos, influenciadores desaparecem (alguém aí conhece um chinês famoso por criticar abertamente o regime?) e, na China, liberdade de expressão não é um direito — é um risco.

Lula não teria outras pessoas para consultar sobre o tema? Será que os chineses são mesmo os mais qualificados para traçar um modelo de regulamentação para o Brasil?

Regulamentar, regular, organizar — tudo isso é legítimo em qualquer democracia. Mas inspirar-se em regimes que perseguem tudo e todos, que transformam o TikTok em ferramenta de propaganda estatal e prendem quem ousa esbravejar a palavra “liberdade” é, no mínimo, preocupante.

Não se pode negar que o mundo digital está infestado de fake news — isso é fato. Elas proliferam como chantilly batido: crescem, espumam e se espalham. Combater esse fenômeno é necessário — e creio que o caro leitor concorda. Mas, e aqui me vêm mais interrogações: o que se busca em Pequim? O que se espera desse “homem de confiança” que virá ao Brasil? Ele ensinará um tutorial de censura? Um código-fonte da opressão digital?

A viagem de Lula à China, portanto, deixa uma pergunta incômoda no ar: o que exatamente se pretende importar da experiência chinesa? Copiar-se-ia um sistema que não distingue moderação de repressão? A admiração pela eficiência não pode servir de atalho para flertar com o autoritarismo.

A democracia, com todas as suas falhas, exige debate, ruído e até exagero. Não há regulação saudável onde há medo de falar. E não se inspira liberdade onde a liberdade não existe.

Desejemos, pois, que essa visita tenha sido apenas um equívoco diplomático — e não um rascunho de intenções futuras. Porque, quando o Estado começa a escolher o que se pode ou não dizer, a linha entre proteção e opressão torna-se perigosamente tênue. E, ao cruzá-la, não haverá mesóclise nem discurso que apague o dano.

Por fim, peço escusas pelo excesso de interrogações — quem sabe, em breve, eu retorne ao tema com pontos de exclamação.